“Um dos meus medos é ser espancada por EU ser EU mesma”

O mês de junho é comemorado no mundo inteiro como o mês do orgulho LGBT e é por isso que esta coluna “Em Fraternidade” apresenta a jovem franciscana Iarah Rodrigues da Rocha, natural de Chopinzinho (PR), e uma grande admiradora de São Francisco de Assis.

Iarah participa das Missões e Caminhadas Franciscanas da Juventude, eventos promovidos pelo Serviço de Animação Vocacional (SAV) da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil desde 2015. “Me sinto lisonjeada por estar falando por vários jovens LGBTs”, afirma.

“Ser trans não me afastou de Deus, muito pelo contrário, só me aproximou mais ainda. Isso porque Deus ama a todos independente do que você seja, e eu entendi isso vivenciando experiências maravilhosas durante toda essa caminhada que estou trilhando, e acreditem, me sinto amada por Ele; não existem lacunas quanto a isso”, revela!

LEIA O TEXTO NA ÍNTEGRA

VIVA SUA VERDADE”

Sou a Iarah Rodrigues da Rocha, jovem franciscana! Participo das Missões e Caminhadas Franciscanas desde 2015! Desde já adianto que estou imensamente grata por este espaço cedido a mim de bom grado pelo “Conexão Fraterna”, na pessoa do Frei Augusto Luiz, neste mês de visibilidade LGBTQIA+. Sou uma grande admiradora de São Francisco de Assis e me sinto lisonjeada por estar falando por vários jovens LGBTs.

Bom, eu sempre costumo dizer que nós, pessoas trans, nos descobrimos duas vezes, isso porque muitos de nós não têm acesso à informação. Durante toda a minha infância tive certeza de que era diferente das outras crianças consideradas “normais”, isso porque quando nascemos somos designados a papéis sociais: masculino ou feminino, vale ressaltar que existem pessoas não binárias, que não se identificam com nenhum dos gêneros e transitam entre os dois gêneros. Eu, todavia, me sentia atraída por tudo aquilo que é considerado “feminino”, ou seja, brinquedos como boneca, estojo de maquiagem, vestidos e afins. Porém, sempre falo que desde criança me sentia menina, as minhas atitudes em tudo o que eu fazia eram ditas por muitos ao meu redor como sendo “femininas”. Lembro-me dos amigos do meu pai indagando a ele o por quê de eu não andar e nem brincar com os outros meninos. Mas eu era uma criança e não entendia por que me questionavam. Por ser de uma escola do campo, os questionamentos eram ainda maiores. O pessoal da comunidade e até mesmo os alunos eram muito cruéis, com piadinhas e brincadeiras de mau gosto. Hoje, esse tipo de atitude é conhecido como “bullying”. Mas, foi só na minha adolescência que passei a me impor mais. Lembro que já me denominavam gay e eu ficava muito incomodada com aquilo, mesmo sem saber o que era. Não me lembro especificamente quando descobri o que significava, mas a partir do ponto que não aguentava mais o “bullying”, disse: “Sou mesmo e aí, interfere na vida de vocês?”. Isso que eu disse foi mais para os meninos da minha sala. Aí a informação se disseminou na escola, e, acreditem, no âmbito escolar as brincadeiras de mau gosto diminuíram e quase que se tornaram nulas. Comecei a ter amizades com os meninos da sala, e eles se afeiçoaram a mim. Participava de quase tudo que eles faziam na escola, a turma, de alguma forma, ficou muito unida e isso perdurou até o último ano do Ensino Médio.

Durante todo esse tempo, sentia algo dentro de mim dizendo que não era só a minha sexualidade que estava em pauta, mas parecia que eu estava incompleta. Volto a frisar que não tinha acesso a esse universo LGBTQIA+, então me conformei em ser gay afeminada. Me formei em 2015 e logo depois comecei uma faculdade de letras, porém não me identifiquei com o curso, e desisti. Em 2016, iniciei a faculdade de licenciatura em Educação Física, à qual estou terminando este ano. Na faculdade tive contato com vários seminários, palestras e outras atividades dentro dos cursos. Uma dessas palestras foi sobre “Identidade de Gênero e Orientação Sexual”. Cada palavra falada pela palestrante eram jogadas na minha cara como verdades sobre mim. Nessa palestra tive a certeza de que era uma mulher trans. A partir daí comecei a procurar mais informações sobre esse universo transsexual e logo descobri que teria que reivindicar um novo nome feminino, assim como mudar vestimentas, características físicas entre outras coisas. É claro, que vale lembrar que isso só é necessário se a pessoa desejar.

Hoje em dia, tenho uma relação boa com minha família. Todos sempre souberam que eu era “diferente”, porém sempre fizeram vista grossa. Isso acontece até hoje. É meio difícil falar sobre família porque meu conceito de família é bem fechado. Família para mim são minha mãe e irmão; os outros são parentes que não estão tão presentes no meu dia a dia. É claro que entre esses parentes existem pessoas que posso contar, que gostam de mim como sou e como estou me tornando. Família pra mim é quem se importa, quem está com você nas horas boas e ruins, independente se for de sangue ou não.

Lembro de quando criança ter feito todos os livros de catequese. Nesta época, não era tão ligada a Deus. Eu me sentia literalmente obrigada a estar fazendo aquilo. Não gostava de ir à catequese porque na comunidade sofria preconceito e todo tipo de incômodo, tanto dos pais dos catequizandos e até mesmo dos catequizandos. Depois da minha crisma fiquei muito tempo sem ir à Igreja por conta própria; ia só quando minha mãe me obrigava. Certo dia, uma amiga da escola me contou sobre um “Encontro de Jovens”. Falou sobre a data e sobre uma comemoração: o Dia Nacional da Juventude. Lembro que quando ela falou dei risada e falei que era o tipo de pessoa que não frequentava esses lugares; mas ela me convenceu a ir ver como era, mas tinha que se confessar antes. No mesmo dia deixei de ir à informática – fazia este curso – e fui me confessar. Lembro que chorei muito me confessando, mas depois disso sai me sentindo mais leve, como se algo tivesse mudado. Depois disso conheci o grupo de jovens da minha cidade. Todos me receberam e me trataram muito bem. Logo de cara ficamos amigos e fui ao DNJ e lá encontrei vários jovens de todas as paróquias da região. Fiz mais amigos e me diverti muito durante este dia. A partir daí comecei a participar do grupo de jovens “Família Franciscana”, e estou até hoje participando. Desde 2015 até hoje fui em quase todas as Missões e Caminhadas, fiz mais e mais amigos e ganhei pais, mães e irmãos por meio de Deus.

Atualmente, posso dizer que minha relação com Deus é muito boa, minhas dificuldades, ao me inserir novamente ao meio religioso, foram basicamente com pessoas, na grande maioria das vezes desinformadas e com o pensamento antiquado, especificamente mais velhas por serem de épocas diferentes da qual vivemos hoje. Porém, eu me imponho e não me calo mais diante de nenhuma situação que me deixe desconfortável.

A Igreja e a Ordem dos Franciscanos têm um papel fundamental na vida dos jovens, independente da condição, seja ele LGBT, negro, gordo, alto, magro; enfim, considero sim a Igreja como um lugar acolhedor.

Acredito que não só no Brasil, mas em todo o mundo, não temos lugar para falar e, quando temos, tentam nos tirar. Nós, pessoas trans, não ocupamos espaços empregatícios. O povo Brasileiro se acostumou a ver nas pessoas trans, fetiches! Mas aí vem a pergunta: Somos o país que mais consome pornografia trans, e, ao mesmo tempo, somos o país que mais mata travestis e transsexuais no mundo, meio controverso, não?!

Grande parte da população nem sequer sabe de nossa existência. Por isso, volto a frisar: existe, sim, falta de informação. Precisamos que as escolas, faculdades, nos abram espaço para falar. Quando digo isso, é sobre ter aula de educação sexual nas escolas, palestras de identidade de gênero e orientação sexual nas faculdades. Tudo isso é necessário para que as pessoas entendam, de uma vez por todas, que não queremos aceitação e, sim, respeito à nossa vida TRANS. Um dos meus maiores medos é ser espancada até a morte na rua por simplesmente ser eu mesma, gente! Faça uma experiência, procure no Google por “Caso Dandara”, lá você verá uma notícia ou até mesmo o vídeo da minha irmã – ‘falo irmã porque ela pertence à mesma realidade que a minha e isso me torna irmã’ – sendo espancada a pauladas, socos e chutes por ser travesti. E acreditem: não é só ela, mas existem vários outros assassinatos das mais variadas formas, e todos eles motivados pelo simples fato da pessoa ser trans.

SER TRANS NÃO ME AFASTOU DE DEUS

Entendi que todos nós seres humanos, somos falhos, isso porque todos cometemos pecados. Ser trans não me afastou de Deus, muito pelo contrário, só me aproximou mais ainda. Isso porque Deus ama a todos, independentemente do que você seja, e eu entendi isso vivenciando experiências maravilhosas durante toda essa caminhada que estou trilhando, e, acreditem, me sinto amada por Ele. Não existem lacunas quanto a isso.

Por fim, deixo aqui um recado para você que está com dificuldades de ser aceito ou em se aceitar. Primeiro de tudo, entenda que você não tem culpa de nada, você não está dando desgosto a Deus por você ser diferente do que é dito “normal”. Deus te ama em todas as suas formas. Eu quero que você, jovem LGBT que está lendo este texto, sinta-se amado por mim; você não está sozinho! Quanto a ser “aceito”, eu sei que muitas famílias não entendem, mas o mais importante é você saber que tudo na vida leva tempo e, acredite, seja quem for que conviva com você ou te ama do jeito que você é ou eles não merecem seu amor! Busque conforto nas pessoas que você sabe que pode contar sempre. E o mais importante, viva a sua verdade!

Um fraterno abraço e Paz e Bem!

Um fraterno abraço e Paz e Bem!

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