“Paz” – Sawdust and flower carpet on a street in Cartago, Costa Rica

“Para os ímpios não existe paz” (Is 57,21)

Quando eu lia os livros que contavam a história do mundo, me pegava imaginando o que sentiam aquelas pessoas que se viam envolvidas por um entorno de guerra – sentindo a escassez de alimentos, os lares rompidos pelas bombas, as famílias estraçalhadas pelo luto, tudo isso inflado pela certeza e pela revolta de não ter dado causa a todo o mal que os alcançava…

Hoje, porém, inserida em uma realidade que – apesar de distante da minha porta – se faz presente pelas janelas das telas, passo a compartilhar, ainda que de forma infinitamente menor, desse sentimento: o que se tinha consolidado por gerações passou a ser incerteza, disputa, objeto de desejo, e tudo sem muito aviso ou explicação.

Talvez essa inquietude tenha sido a força motriz que levou o Poverello de Assis a ir ao encontro do sultão Malik Al-Kamil há mais de oitocentos anos… Francisco vivia em um mundo no qual qualquer motivo justificava uma guerra, até mesmo a fé; porém nem este motivo, por muitos considerada justificação suficiente para matar, o fez seguir o mesmo caminho: ele foi em busca de um diálogo, cujos frutos permanecem respeitados, inclusive pelos seguidores do sultão, até os dias de hoje.

Em um momento que, no Brasil, tivemos ativa a Campanha da Fraternidade deste ano tratando sobre “Fraternidade e Moradia”, também nos é propício meditar sobre a realidade de tantas famílias que, por causa da guerra e suas conseqüências, hoje precisam sair de seus lares em busca da sobrevivência – própria e das pessoas que amam – há quilômetros e quilômetros do que consideravam seu lar; muitos desses “órfãos da guerra”, hoje, inclusive, buscam abrigo em terras brasileiras.

Olhar o cartaz da Campanha da Fraternidade deste ano nos dá muito para pensar… Quantos Cristos “anônimos” e chagados nós vemos dormindo pelas ruas… Quantas chagas desses irmãos, na alma e no corpo, que fazemos questão de não perceber… Quantos de nós não conseguem perceber (e nem ocupam) os espaços ao lado desses Cristos para sentarmos, conversarmos e ouvirmos o que eles têm a nos dizer… Quão dolorosa pode ser a solidão de alguém que vive pelo mundo sem ter um lugar para chamar de “lar”…

Em sua última mensagem, o Papa Francisco nos exorta à prática da paz e à valorização da vida:

Não é possível haver paz onde não há liberdade religiosa ou onde não há liberdade de pensamento nem de expressão, nem respeito pela opinião dos outros. Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento! A necessidade que cada povo sente de garantir a sua própria defesa não pode transformar-se numa corrida generalizada ao armamento. A luz da Páscoa incita-nos a derrubar as barreiras que criam divisões e que acarretam conseqüências políticas e econômicas. Incita-nos a cuidar uns dos outros, a aumentar a solidariedade mútua, a trabalhar em prol do desenvolvimento integral de cada pessoa humana… Apelo a todos os que, no mundo, têm responsabilidades políticas para que não cedam à lógica do medo que fecha, mas usem os recursos disponíveis para ajudar os necessitados, combater a fome e promover iniciativas que favoreçam o desenvolvimento. Estas são as “armas” da paz: aquelas que constroem o futuro, em vez de espalhar morte! Que o princípio da humanidade nunca deixe de ser o eixo do nosso agir quotidiano. Perante a crueldade dos conflitos que atingem civis indefesos, atacam escolas e hospitais e agentes humanitários, não podemos esquecer que não são atingidos alvos, mas pessoas com alma e dignidade” 

“Urbi et Orbi”, 20/04/2025

O Papa Leão XIV nos lembrou há alguns dias: “A morte e a dor causadas por essas guerras são um escândalo para toda a família humana e um grito de afronta a Deus. O que os fere, fere toda a humanidade… Renovo veementemente meu apelo para que perseveremos na oração para que as hostilidades cessem e os caminhos para a paz se abram finalmente, fundados no diálogo sincero e no respeito à dignidade de cada pessoa humana” (“Angelus”, 22/03/2026).

Que, como cristãos, saibamos ser promotores da paz, propiciando condições dignas para que nossos irmãos e irmãs do mundo todo consigam uma moradia digna, uma cidadania plena e uma fé que promova e valorize a vida de todos os habitantes da Casa Comum.

Leila Denise

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