Tem situações em que a gente prefere estar certo a qualquer custo. Uma discussão começa, alguém fala algo que machuca, o orgulho aparece e, quando percebemos, já não estamos mais tentando resolver o problema. Estamos tentando provar que o outro está errado.
O Evangelho deste domingo nos apresenta um caminho bem diferente.
Jesus diz: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular.” Parece uma orientação simples, mas ela é muito mais profunda do que parece. Jesus não está nos transformando em fiscais da vida alheia. Não está dizendo para sairmos apontando os erros dos outros. Está nos ensinando a cuidar dos nossos relacionamentos.
E existe uma diferença enorme entre apontar um erro e cuidar de alguém.
Quando alguém nos machuca, nossa primeira reação pode ser contar para outra pessoa. Depois para mais uma. Talvez até publicar uma indireta nas redes sociais. O problema que poderia ter sido resolvido em uma conversa acaba se transformando em fofoca, ressentimento e divisão.
Jesus propõe outro caminho: converse com a pessoa.
Em particular. Com respeito. Com sinceridade. Não para humilhar, vencer uma discussão ou mostrar que você é melhor. Mas para recuperar o relacionamento.
Isso fica ainda mais claro quando Jesus diz: “Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.”
Perceba: Jesus não diz “você ganhou a discussão”. Ele diz: “ganhaste o teu irmão.”
Na lógica do Evangelho, o outro não é um adversário que precisamos derrotar. É um irmão que não queremos perder.
E isso vale muito para nossas amizades, nossas famílias, nossos grupos, nossas comunidades e até para aquilo que vivemos no ambiente digital. É muito fácil cancelar alguém. Mais difícil é conversar. É ouvir. É reconhecer a própria parcela de responsabilidade. É pedir desculpas. É dar uma nova oportunidade.
Por isso, talvez a Palavra deste domingo nos faça uma pergunta incômoda: quando entro em um conflito, estou procurando restaurar a relação ou simplesmente provar que tenho razão?
São Paulo oferece a chave: “Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo.” O amor não significa concordar com tudo ou fingir que os problemas não existem. Amor também é ter coragem de falar a verdade, mas fazê-lo de um jeito que ajude o outro a crescer.
E existe algo ainda mais bonito. Jesus termina dizendo: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles.” Mesmo no meio dos conflitos, das diferenças e das dificuldades, Cristo pode estar presente quando buscamos a reconciliação e colocamos o Evangelho no centro.
Talvez hoje exista alguém com quem você precise conversar. Talvez seja hora de parar de alimentar uma mágoa, deixar o orgulho de lado e dar o primeiro passo.
Não para vencer.
Para ganhar um irmão.
Porque, no Evangelho, algumas das maiores vitórias não acontecem quando conseguimos provar que estamos certos, mas quando conseguimos preservar aquilo que realmente importa: o amor, a fraternidade e a comunhão.
Frei Augusto Luiz Gabriel
