Tem coisas que a gente demora para esquecer. Uma palavra que machucou, uma amizade que terminou mal, uma decepção, uma injustiça. Às vezes, até dizemos que perdoamos, mas basta lembrar da situação para aquela dor voltar. E então fica a pergunta: até quando eu preciso perdoar?
É justamente isso que Pedro pergunta a Jesus no Evangelho deste 24º Domingo do Tempo Comum: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus responde de um jeito que surpreende: não sete, mas “setenta vezes sete”.
Jesus não está fazendo uma conta. Ele está mostrando que o perdão não pode ter um limite definido. Quem experimenta a misericórdia de Deus também é chamado a oferecer misericórdia.
Isso não significa fingir que nada aconteceu ou aceitar qualquer tipo de injustiça. Perdoar não é dizer que aquilo que nos machucou foi certo. Também não significa necessariamente voltar a confiar imediatamente em alguém. Perdoar é, pouco a pouco, deixar de alimentar o desejo de vingança e não permitir que a mágoa tenha a última palavra.
E talvez esse seja um dos maiores desafios para nós hoje. Vivemos em um tempo de respostas rápidas, discussões nas redes sociais, cancelamentos e julgamentos. É muito fácil guardar prints, lembrar erros antigos e transformar uma pessoa em apenas aquilo que ela fez de errado.
Mas Jesus nos convida a olhar de outro jeito.
No fundo, a parábola contada por Ele lembra que todos nós precisamos de misericórdia. Todos já erramos, todos já decepcionamos alguém, todos precisamos de uma nova oportunidade. Se Deus não desistisse de nós cada vez que erramos, talvez também precisemos aprender a não desistir tão facilmente dos outros.
Talvez exista hoje alguém que você precise perdoar. Talvez exista também alguém de quem você precise pedir perdão. E talvez, antes de qualquer uma dessas coisas, você precise permitir que Deus cure alguma ferida que ainda carrega.
O perdão é um caminho. Nem sempre acontece de uma hora para outra. Às vezes começa simplesmente com uma oração: “Senhor, eu ainda não consigo perdoar, mas quero querer perdoar”. E isso já pode ser um começo.
Quem sabe o próximo grande passo da sua vida não seja vencer uma discussão, mas deixar o amor vencer a mágoa?
Porque o Evangelho de hoje nos recorda: quem foi alcançado pela misericórdia de Deus é chamado a se tornar, também, presença de misericórdia no mundo.
Frei Augusto Luiz Gabriel
