Santo Inácio de Loyola: da busca pela glória humana ao serviço total a Deus

Santo Inácio de Loyola “Dá discernimento a este teu servo” (Sl 119, 125)

Ao contrário da maioria das pessoas, lembro de algumas coisas de minha mais tenra infância. Uma delas é um sonho recorrente, que se iniciou com cerca de quatro anos de idade, onde tinha que escolher entre dois caminhos que se abriam à minha frente: um começava bastante irregular, sem pavimentação e com muitos espinhos, e terminava com uma luz magnífica; outro iniciava maravilhoso, todo florido e decorado, e tinha um horizonte sombrio. E essa foi uma das primeiras coisas que lembrei enquanto pesquisava sobre a biografia de Santo Inácio de Loyola.

Nascido Íñigo Lopez de Loyola em 1491 na cidade de Azpeitia (País Basco), Espanha. Reservados alguns detalhes, sua vida lembra um pouco a de São Francisco de Assis: vaidoso, sonhava ser um cavaleiro coroado de glórias, e participou de várias batalhas; em uma delas, em Pamplona (1521), foi ferido por uma bala de canhão; enquanto convalescia, teve acesso aos livros “A Vida de Cristo” e “A Vida dos Santos”, e isso o foi transformando por dentro; ainda que permanecesse coxo pelo resto da vida, decidiu fazer uma peregrinação a Jerusalém, porém se viu retido em Manresa, onde teve oportunidade de se aproximar ainda mais de Deus, desenvolvendo seus “Exercícios Espirituais”; quando chegou a Jerusalém, o superior dos franciscanos o impediu de lá permanecer, considerando muito escasso seu conhecimento teológico; se aperfeiçoou em seus estudos e adotou o nome de Inácio, em homenagem a Santo Inácio de Antioquia, “do qual admirava seu amor por Cristo e a obediência à Igreja”, os alicerces da Ordem que por ele seria fundada: a Companhia de Jesus, aprovada em 1538 pelo Papa Paulo III, onde seus seguidores fazem voto de obediência, pobreza e castidade; enfrentou vários obstáculos ao longo dos anos que fizeram sua fé amadurecer; por obediência ao papa, permaneceu em Roma; vítima de cirrose hepática e cálculos biliares, faleceu em 31 de julho de 1556 em sua cela (quarto); seus restos mortais jazem na Igreja de Jesus, no Centro de Roma.

Segundo o site Vatican News, três podem ser considerados os pilares para o discernimento para Santo Inácio de Loyola: crer que Deus trabalha em nossa história pessoal, conhecer as armadilhas do inimigo da natureza humana e dar-se conta dos afetos desordenados. De uma forma muito resumida: Deus está presente em nossas vidas, nos direcionando para o Bem; não precisamos nos afastar das coisas do mundo, mas, através da fé, somos convidados a analisar mais profundamente se como esse mundo se apresenta para nós é uma oportunidade de sermos melhores ou simplesmente algo para nos corromper; se soubermos de onde vêm os objetos de nosso afeto e para onde podem nos levar, poderemos trilhar melhor o caminho até o Céu.

Muitos são os membros da Companhia de Jesus, ou Jesuítas, que aceitaram esse caminho ao longo dos anos. Posso afirmar que o que mais me ensinou e me moldou como pessoa foi batizado com o nome de Jorge Mario Bergoglio e, em 2013, escolheu o nome de Francisco. Através de seus ensinamentos, o Poverello do nosso tempo nos deixou vários indícios, seja pelo exemplo e visão de Santo Inácio de Loyola – que queria ser “Companhia de Jesus” –, seja por São Francisco de Assis – que desejou e experimentou vivenciar o amor do próprio Cristo –, de como podemos caminhar até o Reino de Deus.

Na bula Misericordiae Vultus, Francisco nos deixa um ensinamento valioso de como exercitarmos o discernimento, privilegiando o Bem, em nossa vida de cristãos: “10. A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo. A Igreja « vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia ». Talvez, demasiado tempo, nos tenhamos esquecido de apontar e viver o caminho da misericórdia. Por um lado, a tentação de pretender sempre e só a justiça fez esquecer que esta é apenas o primeiro passo, necessário e indispensável, mas a Igreja precisa de ir mais além a fim de alcançar uma meta mais alta e significativa. Por outro lado, é triste ver como a experiência do perdão na nossa cultura vai rareando cada vez mais. Em certos momentos, até a própria palavra parece desaparecer. Todavia, sem o testemunho do perdão, resta apenas uma vida infecunda e estéril, como se se vivesse num deserto desolador. Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança.” (11/04/2015)

Todos temos em nós, além um jardim florido, um terreno pedregoso e cheio de espinhos. Cultivemos, também nessas terras difíceis, não somente sementes de Justiça, mas, principalmente de Misericórdia: só assim alcançaremos a Paz que apenas o Bom Pastor Cristo pode nos proporcionar.

Leila Denise


FONTES:

https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/07/31/s–inacio-de-loiola–presbitero–fundador-da-companhia-de-jesus.html, acessado em 29/07/2026.

https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2024-07/inacio-de-loyola-mestre-discernimento-espiritual.html, acessado em 29/07/2026.

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