“Vou preparar um lugar para vocês” (Jo 14,2)

Sempre que eu ouvia esta frase quando era criança, ficava imaginando um lugar muito bonito, macio, confortável, que faziam parte de um tempo onde eu viveria uma outra realidade. Hoje, já passada mais de uma semana do falecimento do meu pai, ela me faz repensar esta frase de uma forma mais próxima da nossa realidade.

Quando nós nascemos, nossos pais escolhem o nosso nome; o meu foi o meu pai quem escolheu, e ainda na lua-de-mel falou para a minha mãe que a primeira menina que nascesse se chamaria Leila Denise – nome de duas lindas meninas que eram vizinhas dele em sua infância. Já no Antigo Testamento, Deus falou a seu provo através do profeta Isaías: “chamei-te pelo teu nome, tu és meu” (Is 43, 1). Assim como fez com Isaías, Deus me chamou pelo meu nome através dos atos do meu pai.

Nosso lugar no mundo acaba sendo, inicialmente, determinado pelo meio onde nascemos. Tive a felicidade e a graça de nascer em um lar de muito amor, onde fui muito protegida e me foram dadas inúmeras oportunidades – as primeiras, com certeza, auxiliando em minha comunidade com o canto, paixão alimentada pela mesma fé que fazia meu pai, de voz forte, cantar afinado, do banco, a cada missa de domingo.

Devoto de São Francisco de Assis (“porque Francisco é meu segundo nome”), sempre participou da vida de fé em paróquias franciscanas, estando atento ao exemplo do Poverello e às necessidades dos que compartilhavam seu carisma.

Creio que não foi coincidência que minha primeira experiência profissional tenha sido atuando na mesma profissão do meu pai – bancário –, ainda que defendendo outras cores. Era um prazer estar trabalhando e vê-lo chegar (também a trabalho) na minha agência, com seu jeito desprendido, assobiando muito afinado, brincando e mexendo com qualquer pessoa que ele encontrasse, como diz uma de minhas tias, “não importa se vestido de seda ou de chita”…

É verdade, especialmente aos meninos da minha idade, ele por vezes parecia muito pouco receptivo nos primeiros contatos, olhando sobre os óculos ou fazendo cara fechada… Mas assim que tinham oportunidade de falar sobre a vida (e não a minha, claro!), descobriam que ele era uma criança (muito arteira) que não tinha crescido escondida no corpo de um adulto responsável e respeitável.

Às vezes me pego pensando que nem todos os jovens tiveram a graça de ter pais que se amavam com a intensidade que eles se amavam… Ele fazia tudo o que podia para fazer a minha mãe ainda mais feliz – mesmo que isso significasse esconder problemas que pudessem afetá-la, evitar confrontos quando tinha idéias divergentes (principalmente com as pessoas que ela amava), abraçar e acolher pessoas que para ela eram importantes ou tomar às vezes decisões questionáveis… a frase “vocês não incomodem a mãe de vocês” em momentos complicados era facilmente ouvida dele…

Aqui na terra, meu pai e minha mãe preparam um lugar para meu irmão e para mim; tenho certeza que, assim como muitas pessoas queridas nas vidas de cada um de nós que já partiram, hoje estão, na glória do Pai, juntamente com Cristo, preparando um lugar para nós, concretizando o que nossa esperança cristã nos evoca.

Paz e bem!


Leila Denise

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