Sempre que eu ouvia esta frase quando era criança, ficava imaginando um lugar muito bonito, macio, confortável, que faziam parte de um tempo onde eu viveria uma outra realidade. Hoje, já passada mais de uma semana do falecimento do meu pai, ela me faz repensar esta frase de uma forma mais próxima da nossa realidade.
Quando nós nascemos, nossos pais escolhem o nosso nome; o meu foi o meu pai quem escolheu, e ainda na lua-de-mel falou para a minha mãe que a primeira menina que nascesse se chamaria Leila Denise – nome de duas lindas meninas que eram vizinhas dele em sua infância. Já no Antigo Testamento, Deus falou a seu provo através do profeta Isaías: “chamei-te pelo teu nome, tu és meu” (Is 43, 1). Assim como fez com Isaías, Deus me chamou pelo meu nome através dos atos do meu pai.
Nosso lugar no mundo acaba sendo, inicialmente, determinado pelo meio onde nascemos. Tive a felicidade e a graça de nascer em um lar de muito amor, onde fui muito protegida e me foram dadas inúmeras oportunidades – as primeiras, com certeza, auxiliando em minha comunidade com o canto, paixão alimentada pela mesma fé que fazia meu pai, de voz forte, cantar afinado, do banco, a cada missa de domingo.
Devoto de São Francisco de Assis (“porque Francisco é meu segundo nome”), sempre participou da vida de fé em paróquias franciscanas, estando atento ao exemplo do Poverello e às necessidades dos que compartilhavam seu carisma.
Creio que não foi coincidência que minha primeira experiência profissional tenha sido atuando na mesma profissão do meu pai – bancário –, ainda que defendendo outras cores. Era um prazer estar trabalhando e vê-lo chegar (também a trabalho) na minha agência, com seu jeito desprendido, assobiando muito afinado, brincando e mexendo com qualquer pessoa que ele encontrasse, como diz uma de minhas tias, “não importa se vestido de seda ou de chita”…
É verdade, especialmente aos meninos da minha idade, ele por vezes parecia muito pouco receptivo nos primeiros contatos, olhando sobre os óculos ou fazendo cara fechada… Mas assim que tinham oportunidade de falar sobre a vida (e não a minha, claro!), descobriam que ele era uma criança (muito arteira) que não tinha crescido escondida no corpo de um adulto responsável e respeitável.
Às vezes me pego pensando que nem todos os jovens tiveram a graça de ter pais que se amavam com a intensidade que eles se amavam… Ele fazia tudo o que podia para fazer a minha mãe ainda mais feliz – mesmo que isso significasse esconder problemas que pudessem afetá-la, evitar confrontos quando tinha idéias divergentes (principalmente com as pessoas que ela amava), abraçar e acolher pessoas que para ela eram importantes ou tomar às vezes decisões questionáveis… a frase “vocês não incomodem a mãe de vocês” em momentos complicados era facilmente ouvida dele…
O sábio Francisco dos dias de hoje, em plena pandemia, nos lembra da importância da esperança cristã: “’Terminado o sábado’ (Mt 28, 1), as mulheres foram ao sepulcro… Damo-nos conta, mais do que nunca, do sábado santo, o dia do grande silêncio; podemos rever-nos nos sentimentos que tinham as mulheres naquele dia. Como nós, tinham nos olhos o drama do sofrimento, duma tragédia inesperada, que se verificou demasiado rapidamente… Contudo, nesta situação, as mulheres não se deixam paralisar. Não cedem às forças obscuras da lamentação e da lamúria, não se fecham no pessimismo, nem fogem da realidade. Realizam algo simples e extraordinário: nas suas casas, preparam os perfumes para o corpo de Jesus. Não renunciam ao amor: na escuridão do coração, acendem a misericórdia. Nossa Senhora, no sábado – dia que Lhe será dedicado –, reza e espera. No desafio da tristeza, confia no Senhor. Sem o saber, estas mulheres preparavam na escuridão daquele sábado «o romper do primeiro dia da semana» (Mt 28, 1), o dia que havia de mudar a história. Jesus, como semente na terra, estava para fazer germinar no mundo uma vida nova; e as mulheres, com a oração e o amor, ajudavam a esperança a desabrochar. Quantas pessoas, nos dias tristes que vivemos, fizeram e fazem como aquelas mulheres, disseminando rebentos de esperança com pequenos gestos de solicitude, de carinho, de oração! Ao amanhecer, as mulheres vão ao sepulcro. Lá diz-lhes o anjo: «Não tenhais medo. Não está aqui; ressuscitou» (cf. Mt 28, 5-6). Diante dum túmulo, ouvem palavras de vida… E depois encontram Jesus, o autor da esperança, que confirma o anúncio dizendo-lhes: «Não temais» (28, 10)… Nesta noite, conquistamos um direito fundamental, que não nos será tirado: o direito à esperança. É uma esperança nova, viva, que vem de Deus. Não é mero otimismo, não é uma palmadinha nas costas nem um encorajamento de circunstância, com o aflorar dum sorriso. Não. É um dom do Céu, que não podíamos obter por nós mesmos. Tudo correrá bem: repetimos com tenacidade nestas semanas, agarrando-nos à beleza da nossa humanidade e fazendo subir do coração palavras de encorajamento… A esperança de Jesus é diferente. Coloca no coração a certeza de que Deus sabe transformar tudo em bem, pois até do túmulo faz sair a vida. O túmulo é o lugar donde, quem entra, não sai. Mas Jesus saiu para nós, ressuscitou para nós, para trazer vida onde havia morte, para começar uma história nova no ponto onde fora colocada uma pedra em cima. Ele, que derrubou a pedra da entrada do túmulo, pode remover as rochas que fecham o coração. Por isso, não cedamos à resignação, não coloquemos uma pedra sobre a esperança. Podemos e devemos esperar, porque Deus é fiel. Não nos deixou sozinhos, visitou-nos: veio a cada uma das nossas situações, no sofrimento, na angústia, na morte. A sua luz iluminou a obscuridade do sepulcro: hoje quer alcançar os cantos mais escuros da vida. Minha irmã, meu irmão, ainda que no coração tenhas sepultado a esperança, não desistas! Deus é maior. A escuridão e a morte não têm a última palavra. Coragem! Com Deus, nada está perdido.” (Vigília Pascal na Noite Santa, Basílica Vaticana, 11/04/2020)
Aqui na terra, meu pai e minha mãe preparam um lugar para meu irmão e para mim; tenho certeza que, assim como muitas pessoas queridas nas vidas de cada um de nós que já partiram, hoje estão, na glória do Pai, juntamente com Cristo, preparando um lugar para nós, concretizando o que nossa esperança cristã nos evoca.
Paz e bem!
Leila Denise
