“Vá também você para a minha vinha”

Você já ficou incomodado porque alguém recebeu uma oportunidade que você queria? Já sentiu aquela pontinha de inveja quando um amigo foi reconhecido, conseguiu algo importante ou simplesmente pareceu estar vivendo uma fase melhor que a sua?

A gente nem sempre gosta de admitir, mas a comparação faz parte da nossa vida. Comparamos conquistas, relacionamentos, trabalho, aparência, reconhecimento e até nossa caminhada de fé. E é justamente aí que o Evangelho deste domingo mexe conosco.

Jesus conta a parábola dos trabalhadores da vinha. Alguns começaram a trabalhar de madrugada. Outros chegaram mais tarde. Alguns foram chamados quase no final do dia. Quando chega a hora do pagamento, todos recebem a mesma quantia.

Parece injusto, não é?

Mas talvez a grande questão não seja o quanto cada um recebeu. É o fato de que alguns não conseguiram se alegrar porque o outro também recebeu.

E isso diz muito sobre nós. Às vezes, temos motivos para agradecer, mas perdemos a alegria porque estamos olhando para aquilo que o outro tem. A bênção de alguém parece diminuir a nossa. O sucesso do outro parece ameaçar o nosso espaço. E, sem perceber, transformamos a vida em uma competição.

Jesus nos apresenta outra lógica.

No Reino de Deus, não precisamos disputar o amor do Pai. A graça não é um prêmio para quem chegou primeiro. Deus continua chamando, durante todo o dia, pessoas diferentes, com histórias diferentes e em momentos diferentes. Alguns descobrem sua vocação cedo. Outros encontram Deus depois de muitos caminhos, quedas e recomeços. E Deus continua dizendo: “Vá também você para a minha vinha.”

Talvez essa seja uma boa notícia para quem pensa que chegou tarde demais. Nunca é tarde para recomeçar. Nunca é tarde para voltar. Nunca é tarde para responder ao chamado de Deus.

Mas o Evangelho também nos faz outra pergunta: conseguimos celebrar quando Deus é generoso com os outros?

Porque seguir Jesus não significa apenas fazer o bem. Significa também aprender a se alegrar com o bem que acontece na vida do irmão e da irmã. Significa deixar de perguntar “por que ele recebeu e eu não?” e começar a perguntar “como posso agradecer pelo bem que Deus está realizando?”

Isaías nos lembra neste domingo que os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos. Talvez precisemos aceitar que Deus é muito mais generoso do que os nossos critérios conseguem compreender.

A vida fica mais leve quando deixamos de competir e começamos a agradecer. Quando paramos de medir quem merece mais e percebemos que todos vivemos da mesma graça.

Talvez hoje Deus esteja nos convidando não apenas a entrar na sua vinha, mas a aprender a celebrar a presença de todos que também foram chamados.

Porque, na lógica de Deus, o bem do outro nunca diminui o amor que Ele tem por nós.


Frei Augusto Luiz Gabriel

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