Washington Lima e a ‘Empatia Clarifranciscana’ no Conexão Convida

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Olá juventude, Paz e Bem!
Tudo certinho?

Dia 17 de maio é o Dia Internacional da Luta contra a LGBTfobia. Quando se institui um dia para algum nicho da sociedade, em específico: dia da Consciência Negra, dia da mulher, dia Internacional contra a homofobia e etc, certamente o motivo é, além de dar visibilidade a essa questão, mostrar ao resto da sociedade o óbvio. Precisamos respeitar as diferenças, sejam elas quais forem. Não é novidade que o tema é muito delicado ainda, principalmente dentro de nossas rodas de conversa, quando falamos de: religião – Deus – LGBTQIA +. Há quem diga até que estes temas não podem se relacionar. Hoje, nós do Conexão, trazemos um grande irmão que tem um grande testemunho para nós de amor e de luta: Washington dos Santos. Ele é coordenador do Empatia Clarifranciscana, coletivo que tem como meta principal, o maior ensinamento de São Francisco: a vivência do Evangelho em nossas vidas, amando incondicionalmente  a todos os irmãos, sem distinção.

Vamos deixar ele mesmo se apresentar, e nos contar de suas experiências. Vamos conhecê-lo ? 

Stalkeando …

Nome:  Washington Lima dos Santos
Idade: 29 anos
Profissão:  Engenheiro Químico
Música preferida: Povos do Brasil
Filme/série: Segunda Chamada
Livro: O irmão de Assis
Personalidade inspiradora: Ruben Siqueira, CPT
Instagram/ Facebook: @washing.ton.lima


Washington, como foi seu encontro com São Francisco e seus ideais?
Costumo dizer/recordar que minhas primeiras memórias de encontro com elementos da Espiritualidade “Clarifranciscana” – como estou desejando e me acostumando chamar – se deram em casa. Recordo bem do quadro de um homem – Santo Antônio – na parede do meu quarto; das procissões em que me vestia de frade; das velas acesas em oração; de alguns gestos de bondade entre minha mãe e seus familiares; de valores de simplicidade de meus pais e; do impulso que sempre sentia em ouvir desde pequeno as mensagens do Evangelho.

Um sentimento de querer “mudar o mundo” que logo se completou em “a começar por mim”, ganhando força na medida em que começava a tomar conhecimento sobre as figuras históricas e de rica espiritualidade – Clara e Francisco de Assis – ao “descer”, literalmente, da experiência junto à Catedral (que fica em uma região mais alta em Penedo/AL – minha cidade natal) às experiências vivenciadas junto aos frades, postulantes e jovens no Convento Santa Maria dos Anjos.

Foi arrebatador! Aquele Jesus nos altares das celebrações junto à Catedral ganhava total sentido na vida prática que se estabelecia na relação fraterna/feliz/amorosa/leve com os frades e com os outros jovens da Juventude Franciscana (JUFRA). Sentíamos e ainda nos sentimos irmãos e irmãs. Lembro de sentir forte identificação com os ideais clarifranciscanos. Ficava pasmo com a possibilidade de viver aqueles valores que tinham muito sentido para mim. E ainda tem, apesar de que hoje isso não se dá necessariamente e exclusivamente dentro das experiências institucionais… os ideais transcendem espaços.

Na época, ficava muito admirado a cada movimento que dávamos junto aos pobres – pessoas em situação de rua – que ficavam na frente do Convento, nas nossas novenas e ações junto às comunidades mais carentes de nossa cidade, na luta e formação política que acabávamos assumindo na defesa do Rio São Francisco. Era e ainda é, agora em Betim/MG, mágico! Sempre foi, na realidade, uma identificação com o Carisma que Francisco, Clara e tantos outros, até os dias de hoje, abraçam. No hoje, testemunhas lindas entre leigos/as e religiosos/as que muito me (co)movem.

Explica um pouco para a gente, qual é o trabalho do Empatia Clarifranciscana?

O Empatia Clarifranciscana é um coletivo que busca agregar pessoas que se conheceram e/ou ainda se (re)conhecem dentro dos caminhos da Espiritualidade Clariana e Franciscana. Hoje, dentro ou fora das instituições, estamos juntos/as/es na observação particular da pauta: AFETIVIDADE e SEXUALIDADE. Na busca por Igrejas, experiências religiosas e sociedade mais justa e fraterna. O nosso trabalho é proporcionar o encontro, a partilha, a formação e a luta. Grupo terapêutico, cartas de apoio e denúncia, lives formativas…. ah, e claro, o trabalho de se estruturar enquanto coletivo e frente de luta, afinal, surgimos recentemente dentro de um contexto de pandemia e sonhamos com a expansão e iniciativas possíveis de serem realizadas presencialmente.

Na sua visão, quais os desafios de falar, ainda hoje, sobre ser ou não uma pessoa LGBTQIA+ dentro da realidade religiosa que vivemos?

As experiências religiosas nem sempre (no tempo e espaço) se aproximam do real seguimento de Jesus, ou ainda, de seus fundadores e guias espirituais. Ao contrário, muitas das vezes se distanciam. Não podemos esquecer, por exemplo, que em nome de Cristo, Igrejas como a Católica mandaram matar pessoas LGBTQIAP+ por serem quem são. Dito isto, nos encontramos ainda a vivenciar os ECOS dessas dores. Afinal, pessoas foram silenciadas, literalmente, durante muito tempo. Apesar de, por outro lado, encontrarmos ainda hoje representantes fundamentais na luta por respeito, acolhimento e real igualdade em dignidade “religiosa”.

Muitos assuntos morais – sendo bem honesto – nunca foram “o forte da Igreja Católica”. As discussões em torno da sexualidade, identidade e expressão de gênero, ao contrário, foram e, em alguns lugares ainda são, pautas com forte tendência a retrocessos humanitários. Se por um lado é desafiador o encontro da liberdade sexual frente a concepção de pecado adotada em documentos formais da Igreja, por outro, é inaceitável imaginar um seguimento de Jesus que, no mínimo, não seja de acolhimento e não julgamento, de não morte e olhares atravessadores.

Para falar sobre isso é geralmente preciso um mergulho mais profundo nas experiências de amor comunitário, saindo da superficialidade das coisas “que me falaram que eram certas”. É preciso se abrir aos conhecimentos científicos, largar nossas próprias hipocrisias, reconhecê-las e se agarrar nas frentes que identificam que Deus é Amor, que em Jesus não há nenhuma concepção de julgamento à vivência sexual respeitosas para além das relações heteronormativas, e que é preciso desconstruir e reconstruir narrativas, inclusive bíblicas. Não é possível que “os fanatismos” e velhos desvalores nos impeça de avançar.

Por fim, honestamente, é preciso também ganhar certo grau de entendimento que nem todas as respostas precisam ser necessariamente dadas por figuras hierárquicas das nossas instituições e nem esperar por algo que nos vai ser dado de presente. É preciso a ESPERANÇA, do verbo “esperançar” e construir espaços de verdadeira relação horizontal, sem julgamentos e rótulos eternos. Em paralelo, reconhecer que avanços estão sendo dados em outras ordens, afinal, somos um Estado laico e a vida perpassa outras dimensões do SER… a união estável e casamento civil, por exemplo, são direitos, assim como a homofobia é crime. É preciso também ser “esperto”. É preciso desfocar quando querem nos enquadrar e nos colocarem negativamente nas pautas, é preciso dialogar sobre “abandono paternal”, “falta de amor-testemunho entre pais e filhos” e outros assuntos que igualmente importam. É preciso também identificar os extremos e as intolerâncias. Em nome de Deus, muitos religiosos fundamentalistas, leigos ou clérigos, totalmente desconectados, não só estão a desserviço de avanços em pautas específicas, mas vivem verdadeiras vidas de hipocrisia e desconstrução de vidas, o que implica inclusive em crimes. Sim, por vezes, é preciso dar nomes. É preciso o justo equilíbrio entre a denúncia e o anúncio. É preciso bem viver. É preciso testemunhar.

Em sua visão, o que é necessário para sermos o rosto de Cristo para esses nossos irmãos?

Acredito que não existe “nós” e “eles” bem definidos quando nos referimos ao rosto de Cristo. Não existem “ricos” de Cristo e “pobres” de Cristo, é uma posição delicada… isso atravessa dimensões da vida que vão muito além da nossa vã compreensão. Ao mesmo tempo que não existem “nós” e “eles” quando, até certo ponto, tratamos sobre afetividade e sexualidade. 

Para assumir a pauta da afetividade, sexualidade e luta LGBTQIA+ entendemos que é preciso somente SER humano. Ou seja, estar atento e sensível as dores que nossa sociedade atravessa por consequência de contextos históricos, conceitos pré-estabelecidos e desamor. Nesse sentido, somos um coletivo aberto e cuja identidade não perpassa ser LGBTQIA+ restritivamente e necessariamente, mas reconhecer que via espiritualidade “Clarifranciscana” é possível construir uma civilização do Amor, de Empatia. Nós somos um só corpo que sofre… muitos hoje sequer querem se identificar como membros de uma comunidade particular, ainda que eu reconheça que seja importantíssimo essa organização de luta; para identificar que somos tão diversos. Assim, o rosto de Cristo é comum a todos nós; tem também contornos femininos; se revela no gênero que se constrói nas descobertas das particularidades… 

O traço de Cristo por vezes se revela com lágrimas naqueles que sofrem, mas também com sorrisos naqueles que ousam viver de verdade. Ele figura no rosto do homem hétero cis que de forma linda ajuda na luta, bem como desfigurar no rosto de um jovem LGBT que, sem apoio, percebe-se – ou não – totalmente perdido em sua experiência sexual. Jesus é vida e amor; afeto. É felicidade. Ele também está naquele que espelha misérias humanas por viver mergulhado em hipocrisia e na prisão da sua própria vida de afetos, e que ainda assim encontra forças para julgar e condenar a luta alheia.

Ainda é muito delicado dentro de nossas rodas de conversa falar sobre o assunto, mas o que mais nos entristece são os altos índices de violência nestas populações, em 2021, a taxa de mortes violentas aos nossos irmãos cresceu de 8%, chegando a um total de 300 mortes, fazendo do Brasil o país que mais mata no mundo, como lidar com esses índices absurdos? 

Acredito que nesta pergunta existam algumas boas reflexões para todos nós. Como defendi anteriormente, indistintamente. É preciso pensar: delicado para quem? Quem frequenta nossas rodas de conversa? Quem pauta nossas conversas?

Acredito que esses índices são a ponta horrorosa e extrema do “iceberg”. Ou seja, para cada irmão e irmã que é morta em virtude do ódio por quem não consegue ver a liberdade de gênero sendo expressa, existem inúmeras outras formas de matar a existência da população. É a morte via indiferença; piadas desnecessárias; ataques psicológicos; bullying; ser retirado (estruturalmente/moralmente) de representação nos movimentos que fazemos parte; da sub-representação; das dificuldades de superação e acolhimento de preconceitos nos seios familiares e da insistência em concepções que caducaram em ambientes religiosos, ainda que, dando um exemplo, o padre, o músico, o decorador da Igreja sejam gays e ajudem a sustentar a experiência de fé em uma comunidade… é uma falta de coragem coletiva em avançarmos no processo de revisão de conceitos e interpretações que durante anos fizeram ver nossos corpos e expressões de forma limitada e pecaminosa – inclusive nascidas nos seios religiosos. Bem, é certo que ALGO ESTÁ ERRADO. Como pode um país com número expressivo de cristãos galgar esse posto do que “mais mata”, ainda que se tenha a compressão de pecado? Onde isso está legitimado religiosamente e civilmente ao Cristão? Matar que é pecado.

Como vocês acham que podemos introduzir a pauta não discriminatória – de Deus amor – mesmo dentro da religiosidade? Como podemos fazer isso?

Precisamos resgatar as experiências fundantes das religiosidades. É preciso entender que uma coisa é o seguimento, por exemplo, de Cristo, o que nem sempre se dá na prática religiosa dos povos. Precisamos entender o que, de fato, veio trazer as figuras centrais da nossa fé. A partir desse resgate é preciso identificar os contextos, a cultura e a interpretação dos textos e simbolismos… é preciso não ser refém fanático das regras estabelecidas em outros contextos. É preciso reinterpretar a Lei à luz do espírito dos tempos… é preciso entender onde precisamos estar, libertar o que precisa ser liberto e amar sem reservas. 

É preciso escolher melhor nossas lideranças. E isso não significa somente a pauta da representatividade. Mas, também, a pauta do compromisso, de fato, dos representantes eleitos. Não basta se dizer “não LGBTfóbico”, é preciso demostrar compromisso no trabalho e luta contra a LGBTfobia. 

Deus – Amor é um conceito frontal e fundamental dessa porta de entrada, todavia, é preciso ir além. É preciso que esse Amor se revele em desmembramentos. É trabalharmos juntos para fortalecer frentes, por exemplo, como o Conexão Fraterna e o Empatia Clarifranciscana. E nos juntarmos aos coros das grandes e pequenas transformações. É começarmos a pensar que Amar é um ato político, e que defender outras pautas é primordial para o avançar coletivo. É fazer crescer os grupos pastorais LGBTQIAP+; é questionar frontalmente a concepção de pecado, vivendo e construindo de forma vibrante essa Igreja que também somos nós. É sobretudo o movimento para dentro de nós mesmos em busca da contínua elaboração das perguntas e respostas que nos libertam e nos aproximam…

Washington, nós vimos muitos jovens continuarem na vida cristã por se sentirem acolhidos e se sentirem representados dentro da igreja, mas da mesma forma também em muitas paróquias o afastamento desta juventude por se sentir excluída. Como podemos conciliar estes mesmos jovens LGBTQI+ e a igreja?

É verdade. Prova desse afastamento no seio da Igreja Católica é a redução da presença Jovem e enfraquecimento de movimentos juvenis. 

Ainda que se tenha um histórico doloroso, conforme citei antes, é preciso reconhecer que diversos movimentos eclesiais e, a saber, o próprio Papa, tem buscado (re)afirmar que a Igreja Católica hoje não possui direcionamentos gerais de não acolhimento. Ou seja, quem, no mínimo, não acolhe, está em total falta de comunhão com os direcionamentos da Igreja. Para além, existem fortes movimentos revisitando a compreensão de pecado.

Todavia, o que as pessoas precisam compreender é que isso, ainda assim, em nada, na leitura Evangélica, dá espaço à exclusão. Ao contrário. Dito isto, é preciso começar a derrubar as hipocrisias que nos levam a achar que somente o outro peca, e não nós mesmos. Na realidade, somos um corpo imerso em contradições e busca por viver… estamos em um caminho de acertos e erros.

Algumas iniciativas, inclusive nas Igrejas, a exemplo do nosso Coletivo, buscam não somente acolher – em sentido restrito, mas incluir e integrar. Reconhecendo sermos parte em igual dignidade. E, honestamente, somos muito mais do que “com quem nos relacionamentos sexualmente”, certo? Buscamos inclusive ajudar a Igreja a reconsiderar posturas. Acredito que o jovem LGBTQIA+ que não deseja largar sua experiência de fé deva buscar se fortalecer e VIVER com esses grupos, e assim avançar… sabemos bem que não é fácil viver sob resistências e falta de respeito. É preciso saber os limites existentes, inclusive, para além das religiões. Em nosso país a homofobia é crime, é preciso que isso esteja claro. Nosso Estado é laico. É preciso limites a essa loucura fanática de querer fazer o outro engolir nossas compreensões religiosas. Como falei anteriormente, ainda estamos engatinhando. É preciso chegar na coragem comunitária de corrigir quem exclui, além de ajudar no alívio da dor de quem se sente excluído. É preciso avançar a fim de chegarmos a uma sociedade onde as afetividades sejam mais honestas e as sexualidades mais bem vividas. Independentemente da identidade e expressão de gênero.

Por fim, qual a mensagem que você gostaria de deixar para os irmãos que vivem esta realidade em suas vidas, e passam por momentos difíceis, e para os nossos leitores franciscanos, que já estão engajados na Igreja?

Eu diria, de forma geral, indistintamente, que busquem ouvir e compreender seus corpos. É preciso respeitar seus processos, suas mentes.

Aos jovens LGBTQIAP+, aconselharia o envolvimento em iniciativas de acolhimento e vida em abundância, a exemplo do que busca ser o nosso Coletivo. Mas, sempre que possível, estando fortes e empoderados, busquem se colocar “com ternura e vigor” nos espaços abertos, cobrando igual dignidade. Ler, estudar, compreender e testemunhar.

Aos leitores que não se identificam como membros da comunidade LGBTQIAP+, eu diria: é preciso ser anti-LGBTfóbico e é preciso entender que em contextos de profunda desigualdade e dor, não se colocar no mundo, cada um a seu modo, é tomar o lado da opressão. Assim, juntos e fortalecidos avancemos na luta. É preciso estar atento e Forte. Definitivamente, não temos tempo de temer a morte

Por fim, na contramão do que geralmente esperam de alguém LGBT que se sente bem em sua caminhada particular junto à Igreja Católica, eu digo aos jovens que sofrem sobremaneira e constantemente que não se sujeitem a uma dita experiência de fé para viver continuamente sobre o julgo da dor em realidades que em nada representam a experiência Cristã. Que se dizem Igreja, mas se revelam uma seita. Caso sintam necessidade, batam outras portas, e a depender de suas escolhas, portas que se mostram abertas dentro e fora da experiência religiosa da Igreja Católica. Sim, é preciso ter uma fé por caminho natural e não imposição. A Igreja não deve crescer por proselitismo, mas por atração, parafraseando o Papa Francisco na Evangelli Gaudim.

Acredito que vocês estão refletindo, assim como nós, sobre esse assunto de maneira bem diferente após esta leitura. A idéia era essa mesmo; não podemos mais nos furtar de refletir e de agir como quem dizemos que somos: irmãos. E a luta é de todos nós, por um mundo melhor, com mais respeito, menos julgamentos e mais acolhimento.  

É evangélico defender e respeitar a vida em qualquer situação, independente da circunstância.  Nossa auto avaliação como Cristãos e Franciscanos é fundamental para que haja uma mudança efetiva na sociedade e principalmente, dentro de nossas igrejas, que devem ser (sim, devem ser) locais de amor e acolhimento. Assim como Francisco e Clara, experimentaram o Amor de Deus e não o retiveram para si, transbordaram para todos, sem distinção. 

Que Francisco e Clara nos ajudem nessa caminhada, rumo a uma Igreja mais acolhedora, amorosa e fraterna, como Cristo deseja. 

Deus abençoe vocês!

Um abraço!

 Ana e Victória 

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