Campanha da Fraternidade e Educação

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Neste dia 28 de abril celebramos o Dia da Educação. Foi instituído  pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. E falando sobre educação, em 2022 a Campanha da Fraternidade trouxe como reflexão o tema sobre “Fraternidade e Educação” e lema “Fala com sabedoria, ensina com amor” (Pr 31,26). A mesma foi impulsionada pelo Pacto Educativo Global, convocado pelo Papa Francisco.

Pensando nisso, nada mais justo que nossa entrevista deste mês ser feita com um educador. Nosso entrevistado é Robson Ribeiro, professor de Teologia e Ensino Religioso, em Juiz de Fora (MG) e Petrópolis (RJ). Ele é formado em História, Teologia e Filosofia. Tem mestrado em Teologia pela Faculdade dos Jesuítas (FAJE), em Belo Horizonte e atua como professor de Ensino Religioso em dois colégios de Juiz de Fora, são eles: Colégio dos Santos Anjos e Colégio Santa Catarina, além de atuar como professor de Teologia no Instituto Teológico Franciscano (ITF) em Petrópolis, Rio de Janeiro.

Vamos conhecê-lo um pouco mais através do nosso stalkeando:

STALKEANDO

Quer stalkear? O #ConexãoFraterna te dá o @:
@robson.ribeiro.94064

Nome: Robson Ribeiro

Idade: 34 anos

Profissão: Professor de Ensino Religioso e Teologia

Música preferida: Pra sonhar de Marcelo Jeneci

Filme/série: O Senhor dos Anéis, O Hobbit, séries ligadas a Idade Média e assuntos afins.

Livro: Ética e Qual é a tua obra do Mario Sérgio Cortella.

Personalidade inspiradora: São Francisco, Paulo Freire e todos que lutam pela paz e direitos iguais no mundo.

Professor Robson Ribeiro

1- Como professor, qual o impacto das políticas públicas na educação?

A Educação deve ser, em qualquer cenário, a base de uma sociedade. Uma nação que não valoriza a educação está fadada a cometer os mesmos erros do passado e não se atentar para os problemas que enfrenta na atualidade. Falar de políticas públicas é buscar na teoria o que elas significam e atentar-se aos programas ou ações elaboradas pelo governo que auxiliam na efetivação dos direitos previstos na Constituição. Atentando-se a isso, um dos seus objetivos é, colocar em prática medidas que garantam o acesso à Educação para todos os cidadãos. Isso é bem visto na teoria, mas na prática, é diferente.

O direito à educação deve ser defendido em toda e qualquer realidade. Sendo assim, por diversas vezes é essencial reforçar a condição em que vivemos e o descaso com a educação. Infelizmente, vivemos um tempo em que o ser humano é descartável. É preciso, urgentemente, se fazer ouvir e articular o maior crescimento da consciência humana sobre o que é ser humano, sua importância e a valorização da educação. 

Por isso, as políticas públicas estão diretamente associadas às questões políticas e governamentais que mediam a relação entre Estado e sociedade. Quando o Estado não proporciona a mesma condição para as diversas parcelas da sociedade, não há uma melhoria na realidade do ser humano, mas uma segregação, uma divisão. Para tanto, devemos nos atentar para a realidade de condições mínimas para a educação, buscar uma educação de qualidade na base da formação do ser humano, nunca se deixando levar a relação indivíduo e sociedade.

2- Qual o papel da família, da comunidade de fé e da sociedade no processo educativo, com a colaboração dos educadores e das instituições de ensino?

A relação da família, da comunidade de fé e da sociedade no processo educativo é a de acolher, acompanhar, principalmente em um contexto de fragilidade e dificuldades atuais. A Educação Integral deve ser assumida por todos e todas, principalmente com o foco no processo formativo de crianças, jovens e adultos. Tudo isso deve ocorrer em uma grande sintonia para colaborar nos processos de aprendizagens que atuam dentro e fora da escola, nas casas e em todos os locais, colaborando assim na formação do ser humano.

Por isso, a proposta de uma educação integral que zele pelo bem dos indivíduos é “um dos caminhos mais eficazes para humanizar o mundo e a história”, como afirma o Papa Francisco ao lançar o Pacto Educativo Global, propondo ao mundo uma aliança em prol de uma educação inclusiva e atenta aos problemas atuais. 

O Papa Francisco incentiva que todos participem desta realidade e colaborem para o desenvolvimento integral de todos “queremos empenhar-nos corajosamente a dar vida, nos nossos países de origem, a um projeto educativo, investindo as nossas melhores energias e também iniciando processos criativos e transformadores em colaboração com a sociedade civil.” Neste processo, Francisco assinala a Doutrina Social da Igreja como referência, e que é na prática e na colaboração de todos que é possível refletir sobre as grandes transformações.

3- Você acredita que a educação é fruto de mudanças? Qual a mudança que a campanha da fraternidade nos propõe?

Sem sombra de dúvidas, a educação é o caminho para as mudanças. Assim, refletindo nesse contexto, precisamos observar o caminho que seguimos e os exemplos que podemos dar em nossa realidade. Entre eles temos que ter por foco buscar sempre alimentar o desejo de uma sociedade mais humana e exercitar o amor ao próximo por meio de gestos de solidariedade. Além disso, comprometer-se com a verdadeira mudança tem, necessariamente, que passar pela educação e gerar iniciativas de uma Educação Integral, promovendo o ser humano a assumir a sua responsabilidade e, diante da necessidade, se colocar ao serviço dos mais necessitados e frágeis. Para que isso ocorra é preciso promover uma educação inclusiva para que se possa resgatar com justiça e dignidade todas as pessoas que sofrem e necessitam de apoio. Para tanto, falar com sabedoria e ensinar com amor é a proposta de um caminho de diálogo coerente com o que se vive nas esferas social e educacional.

O caminho de construção da CF 2022 tem como uma das motivações a celebração dos 40 anos da Pastoral da Educação no Brasil. Anualmente, os temas propostos pela Campanha da Fraternidade são trabalhados a partir do método “Ver, Julgar e Agir”. Em 2022 o “Ver” será na perspectiva de escutar; o “Agir” seguirá no caminho do propor; e o “Julgar” voltará o olhar para o discernimento.

Atendendo a este contexto, a proposta da CF 2022 se coloca no contexto de promover a reflexão sobre o papel da família, da comunidade e da sociedade no processo educativo; também tem por meta promover a dignidade humana e a cultura do encontro, além de trazer à tona a necessidade de zelar pela Casa Comum e dela cuidar.

Entre os objetivos se faz urgente e necessário observar os desafios que a educação passou por conta da pandemia, além de analisar políticas públicas educacionais e a proposta de uma pastoral em conjunto com as escolas, universidades e centros comunitários. Assim, a Campanha da Fraternidade de 2022 nos convida a refletir sobre a indispensável relação entre Fraternidade e Educação.

Por isso, atrelado ao tema da Campanha, há o desejo de Francisco pelo Pacto Educativo Global que é uma convocação para que todos os agentes sociais façam parte do processo que a humanidade precisa promover para um futuro melhor. Para isso, essa preocupação com a educação é, sem dúvida, o caminho a ser seguido por todas as células vivas da sociedade, ou seja, quando o Papa fala de um Pacto Educativo Global, ele tem em mente um projeto “para e com as gerações jovens, que empenhe as famílias, as comunidades, as escolas e universidades, as instituições, as religiões, os governantes, a humanidade inteira na formação de pessoas maduras”.

Sendo assim, a CF 2022 nos apresenta condições de debater sobre temas importantes e evidencia que é por meio da educação que se muda a realidade de um povo e faz o crescimento que tanto se espera.

4- Ensinar com amor pode refletir e acabar com ciclos de violência? Como podemos apresentar nosso Deus de amor e refleti-lo em nossas ações na escola, família, comunidade e igreja, para uma sociedade menos violenta?

O Papa Francisco ao lançar o Pacto Educativo Global, propõe ao mundo uma aliança em prol da educação. O próprio Papa revela que quando idealizou este novo projeto, nunca foi algo que se pudesse imaginar viver uma situação como a da Covid-19. O coronavírus acentuou a desigualdade social e a escassez de oportunidades educacionais e tecnológicas, a ponto de constituir-se uma verdadeira “catástrofe educativa”.

O termo catástrofe, para alguns pode ressoar como exagerado, mas não é. A vida se tornou um bem de consumo, principalmente na realidade capitalista que só visa o lucro e descuida dos direitos inerentes a vida humana. Francisco apresenta a relação amorosa e comprometida com a educação que todos devemos ter: “A educação é, sobretudo, uma questão de amor e responsabilidade que se transmite, ao longo do tempo, de geração em geração. Por conseguinte, a educação apresenta-se como o antídoto natural à cultura individualista.”

A transformação que deve ocorrer na sociedade deve ser promovida pelo comprometimento com a educação. O termo ensinar com amor é algo que nos convoca a refletir a nossa condição de educadores frente aos desafios da atualidade. Para tanto, é preciso se comprometer com a cultura do encontro, do diálogo e “Educar ao Humanismo Solidário”, pois, é somente com a cultura do diálogo que podemos mudar e nos comprometer com a realidade atual. Por isso, todos nós devemos seguir adiante e aprender a escutar, ouvir o próximo. Destarte os requisitos éticos para dialogar são a liberdade e a igualdade, ou seja, os participantes do diálogo devem estar livres de seus interesses e dispostos a reconhecer a dignidade de todos.

Assim, se faz necessário, uma transformação na educação, pois “Humanizar a educação significa, ainda, perceber que é preciso renovar o pacto educativo entre as gerações.” Por isso, a Campanha da Fraternidade 2022 nos convida a escutar os ensinamentos de Cristo, que se coloca como servo. Ele é o Educador que nos dá a condição de aprender com nossas realidades e em nossos contextos, ou seja, observando a realidade de cada um. Sendo assim, somos convocados a refletir sobre a nossa vocação à solidariedade que nos dá condições de refletir sobre a realidade humana, seu contexto e, principalmente, os desafios da convivência multicultural.

Jesus deve ser nosso exemplo a ser seguido pela sua ética, pelo seu comportamento, costumes, hábito, caráter, modo de ser e de agir. Jesus assumiu sua conduta autêntica em uma sociedade contrária a tudo que ele pregava. Ele veio transformar o mundo, a começar pela sociedade de sua época; desejava fazê-la refletir e mudar seu posicionamento frente ao legalismo exacerbado. Assim, tratar o próximo com respeito é fazer valer o amor criador de Deus e sua proposta de vivência para o ser humano. Jesus nos mostra o que fazer: “O que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a mim o fazeis”. (Mt 25,40).

6- No contexto da educação na cultura atual, quais são os desafios? Eles foram potencializados pela pandemia?

A construção de relações saudáveis em nossas vidas é algo essencial para que sejamos pessoas em constante diálogo e comprometidas com a vida de todos. Assim, um dos grandes desafios é se comprometer com a realidade vivida e com os problemas da educação na cultura atual. A escola deve promover e oferecer uma educação integral que ajude crianças, adolescentes e jovens a identificar suas fragilidades, questões emocionais e, acima de tudo, conhecer a si e às realidades sociais inseridas. Com este cenário é urgente capacitar professores e gestores para colaborar na formação humana de cada indivíduo e que esses tenham condições de trabalhar suas emoções desde cedo e, se for o caso, identificar alguns sinais do seu corpo com relação à depressão e possíveis atitudes suicidas. 

De fato, um dos grandes desafios é o retorno a “normalidade” e a falta de perspectiva, diante de uma pandemia que nos colocou dentro de casa longe da vida social, impactando na vida de crianças, jovens e adultos. Para tanto, é na adolescência que se estrutura a identidade e a real importância da convivência. É preciso se atentar para a percepção de problemas da atualidade. Mudanças bruscas de comportamento como: mau humor, alterações de sono e agressão verbal, são alguns dos sintomas que devem alertar a todos os familiares e, principalmente, na escola.

Pensar neste aspecto é se conscientizar da necessidade de construir uma sociedade que se comprometa com todos e suas dores. Infelizmente, o Brasil mostrou-se despreparado para enfrentar a pandemia e os problemas com a educação, no período da pandemia, foram potencializados. Apesar do empenho e dedicação dos profissionais da saúde, nos deparamos com a postura equivocada que ignorou a gravidade dos problemas e se esforçou para escondê-la em uma onda de negacionismos. Com esta realidade, observamos que nós professores, ao contrário do que muitos pensam, trabalhamos muito mais do que nas aulas presenciais, tivemos muitos desafios e barreiras para vencer.

Infelizmente as vidas se tornaram mercadorias; o ser humano é algo descartável diante do capitalismo que consome tudo e todos. A vida foi reduzida a nada, principalmente em uma visão consumista e antiética de um capitalismo que só visa o lucro e descuida dos direitos humanos. Com isso, a educação, não foi o primordial e não houve uma real intenção em promover os profissionais da educação que tanto lutaram para manter suas aulas e disciplinas ao longo de quase dois anos de pandemia.

É preciso ser coerente e observar a realidade. A saúde mental da sociedade já estava em comprometida; com a pandemia a realidade se agravou e comprometeu as relações humanas com o isolamento social. Neste contexto as crianças e os jovens perderam as interações com os demais colegas, algo essencial para sua constituição enquanto indivíduo. A quebra de rotinas já consolidadas na vida de cada ser humano comprometeu o bem-estar, principalmente por conta da ausência de convívio social.

7- Foram dois anos de afastamento dos estudantes das escolas, como você como professor lida com a retomada de conteúdos didáticos e a pressão psicológica imposta em educadores e estudantes?

A realidade da pandemia, agravou, ainda mais, os problemas educacionais, vivemos em uma realidade de uma educação precária, e diversos contextos que não corrobora para o desenvolvimento do ser humano. Para retomar as atividades em sala de aula, é preciso, primeiro, fazer um processo de escuta. Foram quase dois anos de ausência na sala de aula, de uma metodologia de aulas on-line que, com todos os seus benefícios, comprometeram a vida dos estudantes e, acima de tudo, os deixaram mal acostumados com a forma de avaliar e participar das aulas.

Infelizmente, o distanciamento social foi agravado com a pandemia, aumentando o número de pobres, a esse contexto somasse um grandioso problema social: a evasão escolar, obrigando milhares de crianças, jovens e adultos a abandonarem os estudos. Tal conjuntura comprometeu, ainda mais, o desenvolvimento integral do ser humano e, consequentemente, afetou também o seu desenvolvimento intelectual, seu compromisso e ação social.

Para que haja uma verdadeira mudança, de forma concreta, só será possível se se buscar, conscientemente, compreender a realidade em que vivemos, sendo críticos ao que estamos passando e, atrelados a uma mudança de comportamento, responsáveis por ajudar a construir a mudança que esperamos. Assim, é necessário ousar mudar para edificar reais transformações e promover a esperança. Por isso, é preciso buscar uma realidade nova e outro jeito novo de viver: mais humano, ético e solidário.

Para tanto, a Educação Integral é aquela que entende que a educação deve garantir o desenvolvimento dos sujeitos em todas as suas dimensões: intelectual, física, emocional, social e cultural, além de governos e lideres promoverem uma educação de qualidade para todos. Mas não somente isso, também deve promover e construir uma sociedade comunicativa e, de forma coletiva, dialogar com todas as faixas etárias além de corroborar com a comunidade local.

8 – O que você pode trazer para nossa juventude como mensagem acerca do tema? 

Hoje, com o avanço dos meios de comunicação estamos sendo bombardeados de todos os lados com notícias, comentários, podcasts e diversos tipos de comunicação. Entretanto, é preciso parar e escutar com atenção com o ouvido do coração o outro e sua dor, suas fraquezas e mazelas.

Por isso é necessário, cada vez mais, escutar o outro, suas necessidades, seus desejos e acima de tudo, respeitar. Francisco corrobora com seu pensamento ao manifestar que “a escuta é o primeiro e indispensável ingrediente do diálogo e da boa comunicação.” Por isso Deus se propõe a escutar a todos, se coloca em nossa condição para compreender cada fase e contexto de nossa vida.

Desta forma, acrescento a questão da escuta o termo: esperança. É preciso ter esperança, entretanto, aqui faço menção ao grande educador Paulo Freire, com o termo “esperançar”. Para Freire “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo.”

Destarte, para ser possível ver uma sociedade ética e comprometida devemos manter esta esperança, como também nos apresentou Dom Helder Câmara: “Deixa-me acender cem vezes, mil vezes, um milhão de vezes de esperança que ventos perversos e fortes teimam em apagar. Que grande e bela profissão: acendedor de esperança”.

Só é possível atingir tais objetivos se houver uma mudança considerável no pensamento de nossos governantes e refletir sobre a construção de uma sociedade justa que se preocupa com o bem comum e com a Educação Integral sendo aquela que entende que a educação deve garantir o desenvolvimento dos sujeitos em todas as suas dimensões: intelectual, física, emocional, social e cultural. Mas não somente isso, também deve promover e construir uma sociedade comunicativa e, de forma coletiva, dialogar com todas as faixas etárias além de corroborar com a comunidade local.

Por fim, é preciso fazer ressoar as palavras de Paulo Freire em consonância com o desejo de Dom Helder, ecoando os pedidos de Francisco “é tempo de olhar em frente com coragem e esperança. Que, para isso, nos sustente a convicção de que habita na educação a semente da esperança: uma esperança de paz e justiça; uma esperança de beleza, de bondade; uma esperança de harmonia social!”

Enriquecedora essa entrevista, né gente?! Muito bom podermos falar sobre educação e nossa Igreja! 

Até a próxima !

Ana e Vitória

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