O “dar a outra face” (Lc 6,29) sob o exemplo de Santa Isabel da Hungria

Sempre que lembro deste trecho corajoso que Jesus fala sobre “amar os inimigos”, não consigo evitar de lembrar, sorrindo, da piada do freizinho…

Aquele freizinho, foi provocado por um valentão no ônibus; ao calar após uma injusta provocação e levar um sonoro tapa na cara, respondeu que “seu Deus mandava que ele desse a outra face”. Nem bem terminou de dizer as palavras, ressoou o tapa do outro lado do rosto. Respirou fundo, arregaçou as mangas e aplicou um soco no queixo do valentão e o derrubou. Inconformado, o valentão questionou o freizinho sobre sua reação, ao que ele, sem hesitar, disse: “Nas escrituras fala que, após o primeiro ataque, se deve oferecer a outra face; porém, não fala nada sobre o que devemos fazer após o segundo ataque”.

São muitos os “valentões” que todos encontramos em nossos caminhos de cada dia: “guerreiros profissionais”, haters, influenciadores digitais, pessoas entristecidas ou doentes, com baixa autoestima… A lista é imensa e variada…

Piadas à parte, os franciscanos têm uma importante missão de paz para vivenciar e anunciar: a importância do diálogo, da misericórdia e do amor, sempre tendo presente como a graça e a providência de Deus, podem trazer a justiça e restabelecer aquilo que não está de acordo com o Reino.

Neste dia 17 de novembro, comemoramos a Santa que, juntamente com São Luís de França, é patrona da Ordem Franciscana Secular: Santa Isabel da Hungria – também conhecida como Santa Isabel da Turingia, Santa Elizabeth da Hungria ou Santa Elizabeth da Turingia. Particularmente, a considero uma boa fonte de inspiração para a vivência dos valores cristãos e acredito que não sem motivos…

Nascida no Castelo de Bratislava no verão de 1207, era filha de André II, Rei da Hungria, e Gertrudes de Andechs-Meran, tinha vários santos na família, inclusive parentesco com Santa Inês de Praga. Foi levada com quatro anos para ser criada pela família de seu futuro marido, inspirada por uma profecia, para conhecer os costumes da terra e seus habitantes, acompanhada de um tutor.

Aos sete anos, perdeu sua mãe e aos nove, seu futuro sogro, que a tratava como filha. Casou-se com o Príncipe Ludwig Von Hesse (também reconhecido como santo) no verão de 1221 na Igreja Matriz de São Jorge de Eisenach, e tiveram uma união com muito amor e respeito, gerando três filhos: Hermann (nascido em 1222), Sofia (nascida em 1224) e Gertrudes (nascida em 1227), que veio a se tornar Santa Gertrudes. Enquanto ele governava, eram três os lemas do governo: piedade, pureza e justiça. Ele deixava que ela praticasse livremente suas obras de misericórdia, que sempre eram fortalecidas com muita oração e penitência. Era comum vê-la usando vestes comuns.

Não à toa, ela é padroeira dos padeiros: não media esforços para aplacar a fome do povo, tampouco para o cuidado com os doentes. Chegou a levar um leproso para o palácio e, segundo relatos, instalou-o em seu leito; o marido, alertado por palacianos, ao chegar ao leito, viu Jesus repleto de chagas deitado em sua cama. Pediu ao marido para construir um asilo na base do morro do Castelo Wartburgo, onde, diariamente, sustentava 28 velhos e enfermos que não podiam chegar ao palácio por problemas de saúde.

Em 1221, fundou um convento de franciscanos na Alemanha, enviados pelo próprio São Francisco; ela própria foi a primeira mulher na Alemanha a professar os votos da Ordem Terceira. Há relatos de trocas de cartas entre São Francisco (que inclusive lhe enviou seu manto para agradecer pelos serviços prestados pela ordem franciscana, que hoje está em Oberwalluf, na Alemanha) e Santa Isabel da Hungria, mas não há confirmação se chegaram a conhecer-se pessoalmente.

O marido de Isabel morreu na Itália, a caminho das Cruzadas, em 11 de setembro de 1227, e foi enterrado inicialmente no cemitério de Otranto, sendo trazido à sua terra na volta da expedição. Ainda que seu filho Hermann fosse o herdeiro legítimo do trono, Isabel viu assumir o poder seu cunhado Henrique Raspon. Ela e seus três filhos foram expulsos do castelo, acusados de esbanjar os bens do ducado, saindo a pé em pleno inverno europeu, e o povo foi ameaçado: quem a ajudasse “incorreria em todo o seu desagrado”. Apenas um taberneiro teve a “coragem” de dar-lhe guarida em um casebre que servia como chiqueiro. Ainda que tivesse conseguido outros lugares para ficar, sempre se via em situações que precisava voltar ao casebre, para não prejudicar ninguém. Neste período, alimentou a ela e aos filhos vendendo as poucas joias que conseguiu levar consigo; ainda assim, sempre que podia, poupava um pouco desse alimento para dar aos pobres. Somente nove meses depois de sua expulsão do palácio que sua tia Mectilde, Abadessa Beneditina em Kitzingen, ficou sabendo de sua situação e mandou a trazer ao mosteiro, onde ficou por dois meses, quando foi residir no Castelo de Bodenstein.

Com a volta dos cruzados, ajudaram a restabelecer o acesso de seu filho ao trono. Seus filhos foram encaminhados, conforme os destinos anteriormente estabelecidos (Hermann preparado para o trono, Sofia para o casamento e Gertrudes para a vida religiosa) e Isabel assumiu sua vida de pobreza, trabalhando no hospital que fundou cuidando dos doentes. Depois de pouco mais de duas semanas doente, faleceu na manhã do dia 17 de novembro de 1231, com apenas 24 anos. Como eram vários os relatos de sinais a ela atribuídos ainda em vida, Isabel foi canonizada no dia 26 de maio de 1235.

Enquanto era apenas Cardeal Ratzinger, bispo de Munique, Bento XVI assim se manifestou: “O que fez foi realmente viver com os pobres. Desempenhava pessoalmente os serviços mais elementares do cuidado com os doentes: lavava-os, ajudava-os precisamente nas suas necessidades mais básicas, vestia-os, tecia-lhes roupas, compartilhava sua vida e o seu destino e, nos últimos anos, teve de sustentar-se apenas com o trabalho das suas próprias mãos. Deus era real para ela. Aceitou-o como realidade e por isso lhe dedicava uma parte do seu tempo, permitia que Ele e sua presença lhe custassem alguma coisa. E como tinha descoberto realmente a Deus, e Cristo não era para ela uma figura distante, mas o Senhor e o Irmão da sua vida, encontrou a partir de Deus o ser humano, imagem de Deus. Essa é também a razão por que quis e pôde levar aos homens a justiça e o amor divinos. Só quem encontra a Deus pode também ser autenticamente humano” (da homilia na Igreja de Santa Isabel da Hungria de Munique, 02/12/1981).

Quem nos dera que muitos Franciscos, Claras e Isabéis tomassem nosso destino em suas mãos e, após essa pandemia, que trouxe tanta tristeza, desespero e revolta, mudassem nossas atitudes revanchistas para oportunidades de exercitar a misericórdia, o diálogo e o amor!…

Rogai por nós, Santa Isabel da Hungria!

Abraço fraterno,

Leila Denise.

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