“É uma graça viver na Terra Santa”

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Olá queridos, paz e bem!

Entramos no mês de setembro, mês em que a igreja dedica especial atenção às Sagradas Escrituras. E é claro que nós do Conexão Fraterna não poderíamos deixar de refletir sobre este tema. O nosso ilustre convidado é o Frei Bruno Varriano (OFM). Ele vai nos contar um pouco sobre a sua vida na Terra Santa e, dar seu testemunho, como guardião da Casa de Nossa Senhora e da Sagrada Família. Bora conferir ? 

STALKEANDO

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Instagram: @varrianob

Nome:  Frei Bruno Varriano OFM.

Idade: 48 anos

Profissão: Psicólogo clínico, psicoterapeuta (sacerdote franciscano) e missionário da Custódia da Terra Santa

Onde mora: Nazaré – Israel

Música preferida: Todas do Padre Zezinho, Andra Boccea, Tiziano Ferro

Filme/série: La vita è bella

Livro: Piccolo principe 

Personalidade inspiradora: São Francisco, São João Bosco e Dom Helder Câmara, Padre Zezinho sjc.


1-  Frei Bruno, o sr. poderia nos contar um pouco da história da sua vocação e como chegou à Terra Santa?

Tudo iniciou na minha adolescência, estudando em um colégio dos padres Salesianos, o Liceu Coração de Jesus. Lá eles me transmitiram os valores cristãos, e me apresentaram os santos da espiritualidade salesiana, porém me apresentaram também São Francisco. Conheci os frades em São Paulo e eles me introduziram e me confirmaram a beleza do carisma franciscano. Sendo de família italiana, na Itália prossegui os estudos na Universidade Lateranense, no seminário Romano. Porém o desejo de ser frade menor (OFM), continuou, e acompanhou. Depois de uma peregrinação na Terra Santa com amigos e familiares, conheci os frades da Custódia da Terra Santa (Província do Oriente Médio), e decidi entrar para esta família. Fui acolhido com rigor e disciplina, porém com tanto amor fraterno, me levando a amar esta terra, estes povos, estes meus confrades, como minha família. Passei por momentos difíceis, como duas guerras. No Assédio da Basílica de Belém, no ano 2002, fiquei preso por 40 dias, com pouco alimento, sem água para tomar banho. Éramos 21 frades, 5 irmãs mínimas franciscanas, 4 Armênios ortodoxos e 2 Gregos ortodoxos; juntamente com 240 palestinos armados dentro da Basílica. 8 foram os mortos, e o exército de Israel de fora a pressionar e bombardear diariamente. Por duas vezes, recebemos a chamada por telefone de São João Paulo II, e pude falar pessoalmente com ele uma vez. Ele me perguntou o meu nome, idade e me disse “não tenhas medo”, o Papa está rezando por vocês. Obrigado pelo que fazem pela Igreja. Foi uma experiência que marcou a minha vida religiosa e o meu sacerdócio. Os meus superiores me introduziram na dimensão acadêmica. Por primeiro, estudei Ciências Bíblicas e Arqueologia no Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, e com o início de Padre Pierbattista Pizzaballa, como Custódio da Terra Santa, fui transferido para Roma, para estudar Teologia Espiritual na Pontifícia Universidade Antonianum, e ao mesmo tempo fui nomeado Animador Vocacional e depois Mestre dos postulantes. Depois disso,  os superiores me pediram para iniciar Psicologia clínica. Assim iniciei na Universidade Sapienza de Roma o estudo de Psicologia, concluindo com mestrado e doutorado na Pontifícia Universidade Salesiana de Roma. Sempre continuando o meu serviço como formador. Continuei com Especialização em Psicotraumatologia na Libera Universidade LUMSA, e no Policlínico Agostino Gemelli de Roma. 

E chegou a hora de retornar à Terra Santa. Iniciei o meu serviço como professor do STJ (Studium teologicum Jerosolymitano), e como psicólogo clínico e psicoterapeuta no Hospital Francês de Jerusalém. Foi um período de grande crescimento trabalhando não somente com cristãos, mas também com Judeus e muçulmanos. No ano de 2013 em coincidência com o início do Pontificado de Papa Francisco, fui transferido para Nazaré como Guardião de Reitor da Basílica da Anunciação e do Santuário da Sagrada Família. Ao mesmo tempo, fui eleito definidor no Capítulo da Custódia (Província do Oriente Médio).  Iniciei aqui, o serviço televisivo da Basílica com celebrações internacionais em diversas línguas, porém na verdade fui transportado na “Escola de Nazaré”, crescendo na minha humanidade e fazendo experiência da Vida Ordinária. Esta experiência me levou a escrever alguns livros, porém entendi que a espiritualidade de Nazaré nos forma, nos transforma…. e tenho uma grande gratidão aos meus superiores pela confiança e por me terem proporcionado esta experiência que marcou a minha existência. 

2- O sr. poderia falar um pouco para nós sobre a presença franciscana na Terra Santa, e quais as funções que os freis podem exercer?

A Província da Terra Santa, seja pela vastidão do seu território, seja pela presença dos Lugares Santos, sempre foi vista com especial consideração. Era apresentada, desde o início, como sendo a “Província” mais importante da Ordem. Por isso, talvez, tenha sido confiada aos cuidados de frei Elias, um expoente na fraternidade que surgia, seja por seu talento organizativo, seja por sua vasta cultura. Seria interessante conhecer as iniciativas de frei Elias para organizar e consolidar esta Província da Ordem, levando em conta os problemas existentes naquele ambiente e por sua grande extensão geográfica.

Em 1219, o próprio São Francisco, quis visitar pelo menos uma parte da Província da Terra Santa. Os documentos que relatam a presença do “Pobrezinho de Assis” entre os Cruzados, sobre os muros de Damieta, são do conhecimento de todos. Como também é conhecido o encontro de São Francisco com o Sultão Egípcio, Melek-el-Kamel, neto de Saladim, o Grande. Os mesmos documentos relatam que Francisco, depois de ter deixado Damieta, dirigiu-se à Síria.  De qualquer modo, a visita de São Francisco aos Lugares Santos se deu entre 1219 e 1220. Referente a isto, Jacques de Vitry, bispo de São João de Acre (cidade conhecida como Tolemaida), escreveu:

“O mestre desses frades, que é também o fundador da Ordem, chama-se Francisco. É amado de Deus e venerado por todos os homens. Veio ao nosso exército cheio de zelo pela fé. Não teve medo de passar até o campo dos inimigos”.

Durante sua breve viagem, São Francisco indicou aos futuros missionários franciscanos, de que modo eles deveriam habitar naquelas regiões e qual seria o seu campo específico de atividades. No entender do “Pobrezinho”, a Evangelização deve ser feita amigavelmente e com extrema humildade, exatamente como ele fizera com o Sultão. Os Lugares Santos devem ser amados e venerados por sua estreita relação com os momentos mais significativos da vida de Cristo.

O reconhecimento jurídico por parte da Santa Sé, estendido também aos outros santuários, surgiu alguns anos mais tarde, justamente em 21 de novembro de 1342 com as Bulas Gratias Agimus e Nuper Carissimae. Estas Bulas são consideradas a conclusão definitiva do comprometimento dos reis de Nápoles durante as longas documentações seguidas pela causa dos Lugares Santos. Além do reconhecimento oficial, a Bula de 1328 apresentava prescrições e atas para garantir a continuidade da instituição. Com uma intenção particular, veio assegurada a internacionalidade da nova entidade eclesiástico-religiosa, prescrevendo que os frades poderiam ser provenientes de todas as Províncias da Ordem. Para salvaguardar a disciplina, vinha prescrito que todos os frades, de qualquer Província a que pertencessem, uma vez que nomeados ao serviço na Terra Santa, estariam sob a obediência do Padre Custódio do Monte Sião em Jerusalém, que era o representante do Ministro Provincial residente a Chipre.

Os Frades Franciscanos da Custódia receberam a missão de custodiar os Lugares Santos do cristianismo na Terra Santa. Também o Papa Francisco renovou, recentemente, o encargo com uma carta enviada por ocasião dos 800 anos de presença franciscana na Terra Santa, no dia 17 de outubro de 2017: Unindo-me aos meus veneráveis Predecessores, a partir de Clemente VI, que com a bula Gratias agimus vos confiou a custódia dos Lugares Santos, desejo renovar-vos tal mandato, encorajando-vos de ser testemunhas alegres do Ressuscitado na Terra Santa.

Os franciscanos, ao longo dos oito séculos de permanência na Terra Santa, e em muitos países do Oriente Médio, deram vida a muitas obras de caráter social e assistencial. Dentre essas, existe a gestão dos Institutos para crianças que frequentemente são confiadas a outras comunidades religiosas, que colaboram com os Frades. Existem casas de repouso e centros-médico-assistenciais para anciãos e existem, além disso, atividades ligadas à Custódia, mas não administradas diretamente por ela, como o Instituto da Sociedade Antoniana, em Belém.

 As atividades da Custódia são de particular importância a atividade educativa e formativa, que desenvolve em favor da população local e dos leigos e religiosos provenientes de todo o mundo. Desde 1550, os franciscanos, com a abertura da primeira escola paroquial em Belém, seguida pela de Jerusalém e Nazaré, inauguraram uma longa tradição de formação escolástica para os jovens.

Hoje, as escolas são quinze, em três diferentes continentes, com quase 10.000 alunos.

A atenção da Custódia volta-se também ao processo de educação para a tolerância e pacífico respeito dos vários credos, para a emancipação das mulheres na sociedade e para a extensão da instrução para todos, inclusive para os mais pobres.

Ao lado da oferta formativa da escola, a Custódia promove a sua atividade de pesquisa e formação científica por meio do Studium Biblicum Franciscanum. O SBF é uma instituição científica para a pesquisa e o ensino acadêmico da Sagrada Escritura e de Arqueologia dos países bíblicos. Foi idealizado pela Custódia franciscana da Terra Santa, em 1901 e funciona ininterruptamente desde 1924. Desde 1960 faz parte da Pontifícia Universitas Antonianum de Roma. Em 2001, tornou-se Faculdade de Ciências Bíblicas e Arqueologia.

É composto por dois ciclos de especializações, Licença e Doutorado em Ciências Bíblicas e Arqueologia, com sede no convento da Flagelação. Ao SBF está coligado, como primeiro ciclo de Teologia, o Studium Theologicum Jerosolymitanun, com sede junto ao convento de São Salvador em Jerusalém.

3 – Qual é a sua responsabilidade/função hoje dentro da Custódia da Terra Santa? 

Atualmente, não por mérito, mas por graça, vivo em Nazaré, como guardião e reitor da Basílica da Anunciação. Sou definidor da Província e professor de Psicologia Geral, Psicologia da idade evolutiva, pedagogia e Teologia Espiritual no STJ de Jerusalém. E faço parte do conselho de presidência do CMC (Cristhiam Media Center). 

4 -Como é viver na casa de Nossa Senhora?

A minha experiência com Nossa Senhora se intensificou com a minha vinda para Nazaré. E como pude crescer na paternidade como guardião, onde São Francisco nos convida a nos amarmos como confrades com o amor de Mãe. Porque diz o nosso fundador: se uma mãe ama e nutre o seu filho carnal, com quanto mais amor se devem amar e nutrir os frades nossos irmãos espirituais…. e viver na casa de Maria, no lugar do seu “sim”, que mudou a história da humanidade, renova a cada dia também o meu sim. Esta experiência me levou a escrever o livro “Maria, Mãe da humanidade”, e na experiência com São José a escrever o livro José-Yosef “Artesão de humanidade” pelas edições CNBB e a editora Canção Nova. Ainda tocante, foi a transferência de frades enfermos, alguns muito frágeis, para Nazaré. Pude experimentar no concreto a espiritualidade de Nazaré, realizado em Maria: Et Verbum (hic) factum Est (o Verbum aqui se fez carne). A Palavra grega é “sarcres”, a tradução certa é “fragilidade “. Ele o Verbo (Cristo) se fez carne, fragilidade, humanidade (somente não no pecado). Assim, fiz a experiência de acolher a minha humanidade, a minha fragilidade, e acolher a fragilidade dos meus irmãos e irmãs…. Vivendo em Nazaré cresci no ser frade, ser sacerdote e até mesmo no ser psicólogo. O olhar humano, sem barreiras, sem juízos, porque com a Encarnação, Ele trabalhou com as mãos humanas, pensou com mente humana, amou com o coração Humano (GS 22). 

Imagem: YouTube – Programa “Escola de Nazaré”

5 – E para o sr., como é  tocar e viver em Israel em um  dos lugares onde tudo aconteceu, e tocar diariamente na Palavra de Deus, com a vida?

Como disse: é uma graça, não um mérito viver na Terra Santa. E o quanto é importante transmitir o mistério que aqui aconteceu. Cada lugar que tocamos, não é somente um lugar, mas é O LUGAR SANTO, e este lugar é o testemunho, é o concreto do amor de Deus por nós, que nos amou na história, que nos amou na realidade, que nos amou na encarnação do verbo, que aqui em Nazaré se fez carne e cresceu, que foi adolescente e viveu como jovem aqui e pregou por 3 anos caminhando nas estradas da Terra Santa, e em Jerusalém foi crucificado, morreu por nós, por nosso amor e ressuscitou para nos dar a vida. Estes lugares são o concreto da fidelidade e do amor de Deus. Por isso, o contato com esta palavra de Deus que aqui se fez carne, o contato com os evangelhos, a boa nova de Jesus que  Ele viveu por 30 anos, aqui em Nazaré.

Por que o evangelho não é uma ideologia?

Porque antes de ser pregado, ele foi vivido pelo próprio  Jesus por 30 anos,  na convivência junto de José e de Nossa Senhora. Ele, a palavra vivente, em sua vida escondida em Nazareth, aprendendo a linguagem humana, com José quando iam trabalhar juntos, na cidade de Séphoris, vizinha aqui a Nazaré. Ele experimentou o trabalho, o amor, o estar e ouvir as pessoas, e depois de viver essa experiência de 30 anos vivida aqui, serão pregadas depois por 3 anos. Então, estar aqui neste lugar é uma grande graça, por isso vivendo aqui, queremos sempre proclamar para o mundo inteiro que o Evangelho não é ideologia, que evangelho é vida que nos salva. Já são 9 anos que estou em Nazaré e sei que não estarei aqui por muito mais tempo, por conta dos períodos como frades de transferências, mas  vou levar sempre no meu coração esta experiência, do verbo que se fez carne e encontrou espaço na minha vida e no meu coração, e eu posso dizer que me transformou, por isso, indo de Nazareth, como o beato Charles de Foucoult, que viveu aqui por 3 anos e será canonizado em breve, ele nos lembra que “Nazaré é um lugar de passagem”, por isso, quando passamos por aqui, e levamos essa palavra tendo vivido neste lugar,  é uma graça para nós e também para os irmãos que encontramos, viver e meditar esta palavra aqui é graça para mim e para todas as pessoas que eu tenho a graça de encontrar e transmitir essa verdade do evangelho na pregação e também no amor concreto de viver  este evangelho todos os dias com cada pessoa que encontrar.

6-  Deixe um recado para o nosso povo do Conexão Fraterna: 

Estamos vivendo com urgência a necessidade de retornar à espiritualidade de Nazaré, que nos ensina a Santa Família, de renovarmos em nós o desejo da santidade da vida Ordinária. Sei que os mártires dos tempos de hoje são necessários e são de grande valor, porém necessitamos de santos: pais, mães, esposos, esposas, sacerdotes, religiosos, missionários das novas comunidades, que vivam a santidade do dia a dia. Trabalhando, rezando, amando e se sacrificando na fidelidade na cotidianidade. 

Coisa boa começar o mês da bíblia com esse lindo testemunho… espero que cada palavra do Frei Bruno possa tocar o coração de vocês, assim como tocou o nosso, e na simplicidade de Nazaré, que acolheu a Sagrada Família, possamos aprender com Jesus, Maria e José o amor, a paz, a união, e levar as palavras santas vividas para todos os que passarem por nossas vidas.

Um abraço gente, paz e bem!

Ana e Vitória

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