Pelos caminhos de Caim: uma reflexão sobre a epístola de São Judas e a polarização eclesial atual

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Num primeiro contato a epístola de São Judas gera no leitor uma sensação de alguém que escreve com objetividade. O tamanho do referido escrito, bem como as argumentações nele desenvolvidas nada possuem de prolixidade. São apenas indicativos diante de situações concretas e temas teológicos. Isso não significa que a carta não seja portadora de uma profundidade idônea de um autor bíblico. Além disso, salta aos olhos encantadoramente o conhecimento do autor sobre episódios de contextos do Antigo Testamento. Isso ilustra a sua ligação de fé com o escrito veterotestamentário e o quanto esta tradição pode iluminar a Igreja de seu tempo. Assim, fica evidente a conexão entre essas duas classificações bíblicas, mesmo que na época não se tinha ideia dessa classificação (A.T. e N.T.).

O contexto da carta é bastante interessante pois seus elementos aludem ao modo como a comunidade em questão está vivendo, bem como as suas características e dúvidas. O fato de o autor utilizar o termo “psíquicos” (v.19) demonstra que a epístola é endereçada a um grupo que conhece o termo, e portanto, de proveniência helenista. Mas o fato de ser permeada de ligações com o Antigo Testamento também sugere que esse mesmo grupo já possua um aprofundado conhecimento das tradições judaicas. Assim, por esses e outros fatores, os destinatários do escrito são aglomerados neo-cristãos de comunidades mistas. 

Diante destes e outros fatos é possível afirmar que a carta foi escrita provavelmente entre 80-90 d.C. Isso porque os temas e as discussões de heresias denunciadas pelo autor que estavam em voga nesse período aparecem no escrito. O autor se trata, segundo os estudiosos, de alguém que utilizou o pseudônimo Judas, uma vez que a datação da carta torna improvável que o apóstolo homônimo, irmão de Tiago e “do Senhor”, seja o autor uma vez que algumas temáticas são pós-apostólicas. 

Falando sobre a carta, podemos evidenciar que ela é escrita para amigos do autor, pessoas conhecidas dele, que ele estima muito. Nesse sentido, ele anseia deixar claro para eles que estejam atentos aos que se dizem cristãos, mas na verdade são “divisores” (hereges). Ou seja, estes se apresentam como perigosos, uma vez que articulam divisões na comunidade. O autor os apresenta como sendo guiados e impulsionados não pelo Espírito, e sim pela zombaria, pelas paixões, assim como em Sodoma e Gomorra onde a população se deixou levar por sentimentos errôneos e indignos. Além disso, o autor sugere que estes divisores andam pelos caminhos de Caim, realizando assim um “fratricídio”, ou seja, em nome de suas paixões desrespeitam e desonram a unidade da comunidade, provocando um contratestemunho da caridade fraterna.

Esses hereges, segundo o autor, se apresentam permeando a vida da comunidade voltando-se contra Cristo e contra a ordem estabelecida por Deus. Para falar sobre eles, o autor da epístola se torna poético ao compará-los com elementos da natureza: “São nuvens sem água, arrastada pelo vento. São árvores no fim do outono, sem fruto algum, duas vezes mortas, sem raízes. São ondas enfurecidas do mar, que lançam a espuma de suas sem-vergonhices. Astros errantes, aos quais está reservada a escuridão das trevas para sempre” (v. 12-13).

Como solução o autor sugere que a comunidade se mantenha fiel ao ensinamento dos apóstolos, que alertavam sobre os zombadores. Para isso ele oferece pistas concretas que ajudam a discernir quando alguém está movido pelos instintos ou pelo espírito: “vós, porém, caríssimos, edificados sobre vossa santíssima fé, orai no Espírito Santo e conservai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna. Tratai com misericórdia a alguns que ainda estão em dúvida. A outros salvai, arrancando-os do fogo. De outros ainda compadecei-vos, mas com temor, desprezando até a roupa que o corpo deles contaminou” (v. 20-23).

Com isso o autor sugere uma caridade movida pela ação, pela correção fraterna e pela misericórdia. Mas lança um alerta: tratar com bondade não significa permissividade. Aceitar tudo o que uma pessoa que gera divisões realiza não é o caminho: é preciso ter uma ação paciente, mas não uma conveniência e conivência com atos que não fazem parte do caminho cristão. As pessoas devem ser levadas em consideração e vistas em sua essência, mas as “roupas” que elas usam – e aqui lanço uma interpretação minha – os costumes que elas possuem, as coisas que elas falam, não devem ser tomados como plena verdade, uma vez que são errôneos e podem “contaminar”, manchar a comunidade.

E é claro que esta reflexão se torna oportuna no ambiente eclesial contemporâneo. Em nossa sociedade atual vivemos uma polarização que também possui fortes reflexos dentro da Igreja. Os posicionamentos políticos são tão opositores que influenciam na dinâmica das comunidades cristãs. O modo como as pessoas discutem no ambiente eclesial está permeado dessa divisão, seja presencial ou virtualmente. E assim surgem as “trincheiras católicas” armadas de posições e posicionamentos que por vezes mais dividem do que conduzem à unidade.

As correções ditas “fraternas”, em vários momentos, se tornam exemplar de um extremo contratestemunho, enquanto que pautas ditas “sociais” permeiam o coração de alguns cristãos que também não aprofundam seus argumentos com relação a temas delicados, procurando soluções rápidas para problemas profundos e complexos. O fato é que muitos andam pelo mesmo “caminho de Caim” ao verem o seu irmão como alguém a ser superado e morto para que se acabem a diferenças.

O caminho para uma postura assertiva no ambiente eclesial, em sintonia com o autor é a misericórdia atrelada à correção fraterna oportuna. Creio que todos possuímos nossas coerências e incoerências, e seremos uma comunidade mais humana quando soubermos corrigir com amor e também aceitarmos a correção, ou o outro ponto de vista com respeito. A humildade é um modus procedendi sempre “na moda” uma vez que estamos constantemente aprendendo uns com os outros, e não podemos nos deixar macular pela falsa pretensão de sermos os “donos da verdade”, uma vez que isso já é estar vestido com a roupa contaminada do orgulho, que já é causa de divisões, fundamentalismos e incoerências. Não há quem seja tão rico que não possa receber algo e não há quem seja tão pobre que não possa oferecer algo. Mas também não há quem seja tão certo que não possa receber uma correção e não há quem seja tão errado que não possa ofertar algo de assertivo!

Fraternalmente,

Frei Gabriel Dellandrea

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