Conexão Convida: “Presenciei pessoas sem nada dividindo a fé”

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São Francisco de Assis vivia intensamente suas Páscoas. Durante muitos anos, durante o período da Páscoa, reunia alguns amigos e caminhava entre os vales da Úmbria na Itália até chegar numa grande montanha, o Monte Alverne. Mesmo com o inverno rigoroso da região, típico dessa época do ano, ele descalço, se instalava em sua gruta de oração, feita toda de pedra e ali rezava e fazia sua quaresma. No alto da montanha tomada por musgos, neve e árvores, havia uma profunda fenda numa grande pedra, capaz de abrigar várias pessoas. Naquela fenda ele se abrigava quando mais sentia tristeza, quando mais queria estar próximo de Deus. Considerava aquela fenda a própria ferida aberta ao lado de Cristo, pois se Ele é a rocha, ali naquela fenda aberta poderia encontrar consolo, dentro do corpo de Jesus. Foi no Monte Alverne, durante a novena de São Miguel Arcanjo, que Francisco recebeu a impressão das Santas Chagas. Não foi na Páscoa, mas certamente foi através de um longo processo de conversão, pautado em oração, jejum e caridade, que ele conheceu o amor de Deus por nós, humanidade.

A quaresma, que antecede a Páscoa, é marcada por um tempo de jejum, oração e caridade, como preparação para o grande dia da ressurreição, aprendemos isso em casa e depois na catequese, não é?! É necessário um recolhimento interior para nos aproximarmos mais de Deus. Durante tempos como esses em que vivemos no auge do descontrole da pandemia da Covid-19, somos convidados a nos aproximar daqueles que mais sofrem, sem alternativas, morrem não só pela doença, mas também de fome, marginalizados. Esse é um convite para nossa conversão, para uma ressurreição pessoal. Mais do que apenas falar em caridade, oração e jejum, é preciso e necessitamos da prática.

Sobre esse processo de conversão pessoal, nossa entrevistada deste mês tem bonitas lições de mudança de vida e de conversão espiritual a partir de uma vivência ao lado dos famintos de São Paulo, através do projeto da Tenda Franciscana promovido pelo Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS). Ana Maria, nossa Aninha, de São Bernardo do Campo (SP) viveu em 2020 uma bonita experiência, não apenas de Páscoa, mas que tocou a sua vida e tantos outros que estavam à sua volta (inclusive a minha).

Segundo o dicionário, “stalkear” é uma gíria do idioma português, baseada na palavra inglesa stalker, que costuma ser usada para se referir ao ato de “espionar” as atividades de determinada pessoa nas redes sociais. E é claro que a equipe do Conexão Fraterna tá sempre “espionando” tudo o que acontece por aí. Por isso, fique ligado, você pode ser o próximo “Stalkeado” 😉

STALKEANDO

Quer stalkear? O #ConexãoFraterna te dá o @:
Instagram: @oh_ana

Nome: Ana Maria de Jesus Santos

Idade: 22 anos

Profissão: Costureira

Instagram: @oh_anna

Música preferida: Rindo a toa – Falamansa

Filme/série:  O Auto da Compadecida

Livro: O pequeno príncipe

Personalidade inspiradora: Santa Dulce e São Francisco

Relação com o tema: Aninha atuou como voluntária no Sefras em SP, durante todo o ano de 2020, desde a Páscoa, com uma experiência real de vivência entre os empobrecidos.

CONFIRA NOSSA ENTREVISTA

MARI: Aninha, no ano de 2020 você fez uma experiência no Sefras, trabalhando no combate à fome junto a Tenda Franciscana de São Paulo, voltado especialmente para a população de rua. Essa experiência iniciou próximo ao período da Páscoa. Pode nos contar como foi esse convite e o que te motivou a aceitar?

ANINHA: Eu comecei a acompanhar o trabalho da tenda desde o início pelo Instagram, e de cara eu já queria ser voluntária. Quando eu falei com algumas pessoas sobre, eles me repreenderam dizendo que era loucura e que devia esquecer essa ideia (e foi impossível, rs). Comecei a compartilhar informações no Instagram sobre a tenda, até que um dia o pessoal do Sefras perguntou se eu queria ser voluntária, e confesso que foi a decisão mais difícil que já tomei até agora. Um dia antes de ir para a tenda, eu estava com muito medo e acabei desistindo. Até que mexendo no insta eu encontrei um post com a frase de Madre Teresa que dizia assim: “Temos de ir à procura das pessoas, por que podem ter fome de pão ou de amizade.” E logo em seguida passou um vídeo sobre a tenda, e naquela mesma hora eu decidi ir. Acredito que essa frase e ver o trabalho dos frades franciscanos, foi minha maior motivação.

Fotos: Acervo Pessoal.

MARI: Durante o tempo que esteve lá você se deparou com diversas situações de sofrimento que vão além do não ter teto, tais como a fome, drogadição, solidão, discriminação LGBTQI+ etc. Como foi isso para você? Qual foi a experiência mais marcante?

ANINHA: Essa foi a parte mais complicada do meu voluntariado. A realidade nas ruas é bem mais difícil do que eu imaginava, e quando eu passei a conviver com ela, eu fiquei bem abalada. E o que mais me marcou foi encontrar a solidariedade dos próprios assistidos em meio ao caos. Eu presenciei pessoas com sede dividindo água e até pessoas sem nada dividindo a fé, e isso me marcou muito

MARI: Praticar a caridade faz parte do processo de conversão, e você deve ter passado por isso. Ficou meses como voluntária na tenda, e até morou por um tempo no Convento com outros voluntários e frades que conheceu. Você fez muitos amigos, dentre eles, inclusive, pessoas em situação de rua, amigos que muito te respeitam. Conte como foi o sentimento desse chamado de Deus a doar a sua vida em prol dos mais necessitados?

ANINHA: No início foi bem difícil de entender esse sentimento, sabe? Por muitas vezes eu quis desistir, pois não me considerava suficiente para esse chamado.  Foi com o tempo que passei a sentir a importância dele. Através desse chamado eu me encontrei e não só ouvi como fiz parte de histórias incríveis. Hoje sou muito grata por ter sido escolhida para viver esse chamado e  já não consigo me imaginar vivendo de outra forma.

MARI: A Tenda Franciscana de São Paulo tinha uma característica muito interessante: nem todos que estavam ali como voluntários eram católicos, mas todos trabalhavam pelo mesmo motivo: o cuidado com as pessoas em situação de rua. Viveram a Páscoa, feriados, finais de semana para o outro, doando seu tempo e trabalho a quem necessita numa alegria sem tamanho. Por que você acha que isso aconteceu?

ANINHA: Acredito que a pandemia mexeu com as pessoas, e isso fez com que pudéssemos voltar a ser mais humanos, a ponto delas sentirem a necessidade de fazer algo apenas por amor ao próximo.

Fotos: Acervo Pessoal!

MARI: Hoje o trabalho de combate à fome funciona de uma outra forma em São Paulo, com o atendimento no Chá do Padre, ainda no Largo São Francisco. Você ainda participa desse espaço? Qual a principal lição que você tira desse período todo de missão?

ANINHA: Eu participei do Chá do Padre por um curto tempo, infelizmente hoje eu já não consigo me doar 100% nesse espaço, mas eu continuo sendo voluntária no Sefras, e sempre que consigo eu vou ao ‘chá’. Sem dúvidas a maior lição que eu tiro é que a solidariedade vai além de só doar coisas materiais.  Os moradores em situação de rua precisam sim de alimentos, de roupas e etc… Mas eles também precisam ser escutados, serem enxergados, precisam de respeito e principalmente serem tratados com dignidade e com amor.

Dica final para galera bombar com o tema:

“Levar amor a um desconhecido, sem querer nada em troca, só por amor mesmo, é o ato mais revolucionário que existe, é o ato que pode mudar o mundo” (Ana Maria)

No próximo mês teremos entrevistas falando sobre temas relacionados com a sua vida. Quem sabe você não é o próximo? Aproveite e conte para nós o que achou da nossa nova coluna.

Entre em contato pelas redes sociais do Conexão Fraterna!

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