“Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”

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Todos nós quando acordamos no meio da noite para ir ao banheiro ou tomar água, ao acendermos a luz, sentimos uma estranheza no olhar. Partir do escuro para o claro não é fácil para a visão, mas aos poucos vamos nos acostumando. Assim, olhar para si mesmo e perceber as próprias trevas não é algo simples, pois ao acendermos a luz a nossa “visão” sobre nós mesmos também estranha a claridade. Reconhecer os erros é um processo importante, para que nos aproximemos mais da verdade, por mais doloroso que seja. E isso é quaresma.

Mas é importante sair da zona de conforto do erro para o difícil processo da busca por acertar. Na liturgia deste final de semana, há o relato do povo de Israel que não quis fazer isso: preferiu zombar daqueles que lhe anunciavam a verdade. Depois, colheram a consequência daquilo que fizeram de errado em suas vidas: a deportação. Foram para a Babilônia, bem distante de sua terra natal, de sua região, de sua fé. Não podiam mais rezar ao seu Deus. Lá abriram os olhos e perceberam suas faltas. Lá não tinham nem voz para cantar. Mas sonharam novamente quando puderam voltar para a sua terra, quando puderam voltar ao seu culto a Deus.

Assim, nós também estamos colhendo os frutos de nossos erros diariamente. Sabedoria não é nunca errar, mas ao reconhecer o erro, querer acertar. E nessa pandemia creio que aconteceram muitos erros. Frases como: “não vou tomar vacina da China”, “isso é só uma gripezinha”, “enfia a máscara naquele lugar”, “estão superdimensionando o vírus”, “se eu morrer o problema é meu”, “isso tudo é histeria”, “não vamos chegar nem a mil mortos” e entre outras nos afundaram em trevas. Autoridades, pessoas públicas e muitos de nós, “peixes pequenos”, fizemos zombaria com relação à situação atual. Colocamos em descrédito a medicina, a ciência, a fé, as organizações de saúde. Fizemos chacota e piadas com quem nos anunciava a verdade como o povo antigo.

Essas nossas ações nos deportaram também: agora estamos num país que alcançamos o primeiro lugar. Sim, o primeiro lugar na triste posição do número de mortes diárias: mais de 2000 mortes por dia. Porém, nunca é tarde para acendermos a luz e percebermos a real situação que vivemos: se antes duvidamos da vacina, hoje queremos ela o quanto antes; se antes acreditamos que era uma gripezinha, hoje sentimos a dor de saber que é uma doença extremamente perigosa; se antes as autoridades zombavam do uso da máscara, hoje percebem a sua eficácia, mesmo que tarde.

Por isso, a verdade aos poucos prevalece. Pois como nos diz o Evangelho deste domingo: o que é verdadeiro não tem vergonha de se mostrar. E os homens e mulheres de bem não deixaram de fazer isso ao longo da pandemia. Por mais que nos doa aos olhos contemplar a verdade, ela não deixa de se manifestar. Agora, o que é errado se esconde, ou esconde as suas ações. Desvia o olhar: grita notícias falsas para na verdade esconder as suas próprias falsidades, os seus próprios erros, as suas próprias incompetências.

E diante deste cenário é preciso fazer como Jesus: por mais doloroso que seja acreditar que um Deus tenha que passar pela cruz para ser fiel à sua missão, ele passa. Pois seria mentir para si mesmo fugir das consequências de seu amor. Jesus não hesitou em salvar a todos levando a termo aquilo que mais pregou: um Deus misericordioso! Com Jesus aprendemos que é preciso permanecer fiel aos sentimentos nobres que fazem o ser humano ser melhor: a misericórdia, o perdão, o lava-pés, a humildade de reconhecer os próprios erros, a empatia – mesmo que em dias de indiferença, intolerância e ódio, “ser do bem” seja carregar uma cruz.

Com Jesus aprendemos que cada vida é importante e mesmo que apenas só uma pessoa tivesse morrido de COVID-19 no nosso país, iríamos chorar essa dor como sentimos diante dos números exorbitantes que vemos diariamente. “Vão chorar até quando?” –perguntaram – e eu responderei: “Até quando ainda houver descaso com relação à vida; até quando pessoas públicas espalharem fake news e levarem muitos à morte; até quando as famílias tiverem que enterrar seus entes queridos sem o mínimo de dignidade por causa de uma doença que não é levada a sério; até quando tivermos profissionais da área da saúde morrendo por salvarem vidas enquanto que aqueles que numa canetada, fazendo piada e brincadeira, só salvam a si e os seus”.

Fraternalmente,

Frei Gabriel Dellandrea

Foto de destaque de Davi Leon, Paróquia Santa Clara de Imbariê (RJ).

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