Francisco, o mundo tem saudades de ti

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Essa foi a frase dita pelo Papa João Paulo II durante uma visita ao Monte Alverne, local onde Francisco recebeu os estigmas das santas chagas. E essa é a frase que escolhi para começarmos a coluna Diálogos Fraternos desse mês de outubro, para refletirmos o quanto nosso mundo, mais do que nunca, precisa reviver esse testemunho de vida que foi Francisco.

São Francisco foi e ainda é um homem apaixonante. Quem escolhe abrir seu coração para conhecê-lo, está condicionado a encontrar uma nova forma de viver. Foi assim com Santa Clara e com seus amigos de Assis; foi assim comigo, provavelmente com você e inúmeros jovens, religiosos e leigos.

São Francisco esteve a frente de seu tempo. Ao se encontrar com o amor verdadeiro pelo Crucificado passou a amar e viver em fraternidade com toda a criação. Foi um processo de conversão, levou tempo para maturar todos os encontros e vozes. Quando entendeu se posicionou, foi firme nas suas atitudes. Foi contra o sistema da época, negou a nobreza e a riqueza material e abraçou a Dama Pobreza como sua esposa. Deixou sua casa, seus pais e todo conforto. Foi questionado, mas não cedeu. Seu testemunho arrastou vários outros, quando pregava era para honra do Senhor e salvação dos que o ouviam, jamais foi para sua vaidade. Sua denúncia era através de atos, de oração, de jejum. Dialogou (e como!) com todos, escreveu para prefeito, falou com sultão e até com o Papa, sempre de forma humilde com palavras de afeto.

Agora pensemos Francisco hoje… Como seria esse jovem Francisco? Onde nasceria, quem seriam seus pais? O que denunciaria? Certamente Papa João Paulo II rezou essa saudade com muita razão, diante do mundo contemporâneo.

Para discutirmos esse assunto, não poderíamos deixar de fazer um Diálogo Fraterno, em edição especial, e contar com convidados ilustríssimos: Frei Alisson Zanetti, Frei Diego Melo e Frei Vitório Mazzuco. Os três são OFM da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil e ambos apaixonados pela juventude. Cada um com uma perspectivada vida de Francisco, a partir das suas experiências desse encontro com São Francisco de Assis.

Mari: Frei Alisson, na sua opinião, como o jovem hoje pode se assemelhar a Francisco de Assis?
Frei Alisson: O jovem de hoje pode se assemelhar a Francisco fazendo da sua vida uma vida trinitária e de outras formas mais. Colocar a Trindade como um Mistério de Amor na sua vida, mas não distante e sim próximo de si. Os três membros da Trindade devem ser valorizados de forma que um não se sobressaia do outro. Francisco fez muito bem isso… Amar a Cruz a Eucaristia onde a Encarnação encontra o seu ápice. Em suma: o jovem se assemelha a Francisco sendo livre, feliz e pronto para os enfrentamentos da vida. Uma juventude é um jovem. Que não tem o medo como o seu conselheiro, está próxima de ser como Francisco é ainda hoje.

Frei Alisson atua no Serviço de Animação Vocacional, o SAV.

Mari: Frei Vitório, o senhor como pesquisador da espiritualidade franciscana e conhecedor da vida de São Francisco nos diga: como nosso tempo e cultura afetariam (ou não) a existência e missão de Francisco?
Frei Vitório: Nada melhor para responder esta questão do que fazendo uma comparação. O que impacta o nosso tempo é que Francisco é uma provocação onde falta conscientização. Nosso tempo e cultura produzem esquecimento e Francisco produz memória e recordação constante do melhor que a vida tem. Nosso tempo é agressividade, Francisco é sensibilidade. Penso que nosso tempo reconduziria Francisco a casa de Pedro Bernardone, porque nosso tempo é de sistemas utilitários, mercado e consumo; e Francisco rompe com tudo isto, ele sai do uso das coisas para conviver mais com as coisas. O nosso tempo degladia-se ainda em questões de gêneros, e Francisco fez do masculino e feminino a irmandade. O nosso tempo escraviza em ideologias e Francisco está na liberdade das escolhas. A criatura humana não é prioridade para ninguém nestes tempos atuais, sobretudo para governos; mas Francisco sempre buscou uma humanidade plena de sentidos. Francisco antecipou o movimento humanista que nasce com Francisco Petrarca (1304- 1374), um movimento que procurou entender a alma humana, e Francisco é a própria alma humana; os tempos de hoje priorizam a técnica onde a alma humana, muitas vezes, é subornada pela máquina. Hoje fala-se de uma globalização, mas sem humanização. Francisco fala de um fraternismo universal profundamente humano. Os tempos de hoje são de aceleração e Francisco era a calma dos passos na estrada sem pressa. Os tempos de hoje trazem a evolução tecno-científica como prioridade, e
Francisco é a natural evolução do humano. O cristianismo hoje está fragmentado, o cristianismo de Francisco é a unidade presente na Boa Nova. Os tempos de hoje trazem a teoria da conspiração como tramas de fake news para desestabilizar as verdades; Francisco de Assis mostra a transparência de tudo o que existe no seu esplendor natural e verdadeiro. Os tempos de hoje pregam: “corrompe e faz”, Francisco é justiça e paz. Os tempos de hoje destroem biomas, fauna e flora em queimadas; Francisco é a Casa Comum preservada. Os tempos de hoje são de uma minoria privilegiada que acumulam riquezas; Francisco está do lado dos pobres. O mundo de hoje processa a prioridade do material, Francisco é imaterial. Os tempos de hoje trazem o racismo e a intolerância, a discriminação e a antipatia para os que pensam diferente; Francisco é simpatia para com todos e o respeito a diversidade. O mundo se isola em condomínios; Francisco ainda é um peregrino que mora nos lugares sem muros. Para o mundo de hoje toda relação tem um certo interesse, para Francisco toda relação é comunhão. O mundo de hoje tem a desconfiança; Francisco abandona-se sem qualquer suspeita. O mundo de hoje isola; Francisco gera encontros. O mundo de hoje não daria um espaço para Francisco como prioridade; mas ele entraria nas culturas com sua originalidade, pois ele é um grande provocador.

Mari: Conhecendo um pouco da nossa juventude franciscana, e da sua vivência com jovens de vários continentes, você acredita que os jovens franciscanos hoje seriam franciscanos na Idade Média?
Frei Alisson: O jovem de hoje com certeza seria sim franciscano na Idade Média. O encanto do carisma franciscano medieval é o mesmo encanto de hoje. O que mudou foi o jovem e não o carisma. O jeito de ser franciscano naquele tempo seria totalmente avesso de hoje. A começar pelo teocentrismo que não poderia ser ferido, não que o jovem de hoje fosse ferir isso, mas seria tolhido no seu jeito de manifestar e comunicar sua experiência de Deus e com Deus. Hoje a juventude é midiática e inserida nas redes sociais. Na Idade Média o jovem franciscano não teria esse instrumental, porém o jovem hodierno gosta de recolhimento, de se retirar, era uma prática muito comum de Francisco e do ser medieval. Isso faria a diferença para o jovem ser franciscano no tempo medieval. Outra característica seria a cortesia, a fidalguia do medieval e isso a juventude de hoje tem muito presente. Uma juventude pujante e graciosa que muito se assemelha com o jeito medieval.

Frei Diego Melo é o idealizador das Missões Franciscanas da Juventude.

Mari: E para você, Frei Diego, que está inserido em programas de acolhimento e ajuda aos mais necessitados, diante de uma sociedade machista, lgbtfóbica, extremamente moralista e com dificuldades de aceitar as diferenças, como Francisco seria tratado, ou como ele se posicionaria?
Frei Diego: Ao olharmos para as Fontes Franciscanas, perceberemos que Francisco de Assis tornou-se um referencial de santidade exatamente por ser um modelo de ser humano. Sua busca de Deus o aproximou cada vez mais dos homens e das mulheres do seu tempo. Segundo a Legenda dos Três Companheiros, Francisco, ‘partindo do grau de dons naturais, chegou até o grau de dons sobrenaturais’, de tal modo que que a sua personalidade carregada de generosidade, cortesia, bondade, respeito, alegria e espontaneidade jamais foi negada após o seu encontro com o Senhor. Sua personalidade foi elevada e aperfeiçoada a ponto de ele ser apontado como arquétipo de um ser humano bem integrado. Portanto, Francisco é santo porque soube ser gente, soube ser humano. Além disso, a decisão de estar ao lado dos leprosos, considerados os mais desprezíveis da sua época, nos faz entender que a sua conversão envolveu uma mudança de mentalidade, de lugar social e até mesmo de concepção religiosa. Se para a Igreja da época os leprosos eram tidos como mortos, com direito a um ritual de exéquias realizado enquanto vivos, para Francisco, esses eram os irmãos para onde o Senhor o havia conduzido e com quais ele deveria fazer misericórdia. Assim, estou convicto que Francisco de Assis hoje estaria ao lado dos leprosos contemporâneos, ao lado dos desprezados e daqueles que nem sequer tem voz e vez na sociedade e até mesmo na Igreja. Aprisionar a opção radical de Francisco pelos leprosos de seu tempo dentro de um romantismo longínquo significa matar a força do seu carisma e da sua intuição. Por isso, é importante que nós, franciscanos e franciscanos, não tenhamos medo de nos posicionar diante de toda falta de compaixão e de respeito para com as diversidades, sejam de sexo, gênero, raça, condição social ou religiosa. Se o Frade Perfeito descrito por Francisco é aquele que conjuga as diversidades e a peculiaridade de cada irmão, da mesma forma a sociedade perfeita e a Igreja perfeita é aquela que consegue entender que Deus tem muitos rostos e muitas expressões. Por fim, quanto mais entendermos que a fraternidade proposta por Francisco é fruto da diversidade, e não da uniformidade, mais seremos respeitosos, acolhedores e empáticos.

Frei Vitório Mazzuco é coordenador pastoral da Universidade São Francisco.

Mari: E como podemos fazer para que essa espiritualidade ecoe em nosso meio?
Frei Vitório: Fazer ecoar esta Espiritualidade é mostrar que ela é sempre nova porque tem a raiz na Boa Nova, ela é pura e simplesmente o Evangelho. Ela é uma Espiritualidade com evidência histórica: são 800 anos de vivência e coerência em todos os seus ramos e segmentos. Mostrar sempre que ela é um natural encontro e confronto entre Deus, pessoa e realidade. Uma relação entre inspiração, sonhos e tensões humanas. Uma Espiritualidade de comunhão e não de exclusão. Uma espiritualidade de comunicação e não de uma introspecção alienante. Ela salta para o mundo, para o povo, para as criaturas e para a eclesiologia. É uma espiritualidade “pé de serra”, isto é, não é elitizada, exclusiva de alguns, mas sim uma Espiritualidade que abraçou os humildes, os pobres, o povo, as almas mais simples e as coisas mais simples, ela é popular. Uma espiritualidade que colocou as classes sociais no mesmo plano porque prioriza o espírito comum. Uma Espiritualidade que não se apega ao banal, mas faz a escolha a partir do melhor: A quem queremos servir? Do lado de quem devemos estar? Ela é uma ação humana ética, pois encheu o mundo de Evangelho e de valores e virtudes. É uma Espiritualidade que entra na Palavra e na Imagem com a mesma intensidade; uma Espiritualidade rica em iconografia que abraça o Belo e o Bom. É uma Espiritualidade que não é livro de auto-ajuda, mas Fontes que mostram um caminho de conversão. Uma Espiritualidade de intimidade e enamoramento. Que faz da oração um artesanato do espírito. É uma Espiritualidade que leva a gerar convivência fraterna com a finalidade de qualificar relacionamentos. Enfim, uma Espiritualidade para seguir, imitar e apaixonar-se por Jesus Cristo seguindo os passos de Francisco de Assis. Por quê? A resposta está no que diz George Duby: “O que restou do cristianismo nós devemos a São Francisco de Assis”. São Francisco de fato é um encantamento e um verdadeiro mistério. Através dele eu encontrei Cristo verdadeiro e consegui enxergá-lo no rosto do meu irmão. Não há muito a se dizer quando encontramos e vivemos isso em nosso dia, acredito que seja mais uma questão de testemunho, de como encontrar com Deus através dessa espiritualidade. Se você ainda não teve esse encontro, te convido a isso. É gradativo, é conversão e é liberdade.

E assim finalizamos a coluna deste mês, com a oração completa que o Papa João Paulo II dedicou a São Francisco:

Paz e bem, abraços fraternos e feliz festa

A foto de capa desta edição foi retirada do filme “Irmão sol, irmã lua”. As demais imagens são de arquivo pessoal dos entrevistados.

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