O jovem no setembro amarelo

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Cuidando da Saúde Mental

O mês de setembro chegou e com ele a tradicional campanha do SETEMBRO AMARELO. Este ano, em decorrência da pandemia do Covid-19, é imprescindível falarmos de saúde mental, em especial ao pensarmos no tema direcionado ao jovem, público que muito tem sofrido, infelizmente.

Em junho de 2020, foi divulgado um estudo chamado “Juventudes e a Pandemia do Coronavírus”, realizado pelo Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), em colaboração com a Fundação Roberto Marinho (FRM) e outras instituições. Seu principal objetivo foi analisar as consequências dessa crise sanitária sobre diversos aspectos da vida dos jovens brasileiros. No total, participaram 33.688 jovens entre 15 e 29 anos de todos os estados do Brasil.

Dentre vários efeitos negativos causados aos jovens pela pandemia, foram identificados alguns prejuízos emocionais. Em geral, os jovens sentem que suas condições físicas e emocionais foram agravadas pelo isolamento social (62% dos entrevistados). Ansiedade, tédio e impaciência foram identificados como os sentimentos mais comuns durante o confinamento. Cerca de 70% dos entrevistados afirmaram que seu estado emocional piorou um pouco, ou muito, durante a pandemia. No entanto, o acompanhamento dos familiares e o contato on-line com os amigos foram identificados como os aspectos que mais os ajudaram a lidar com essa contingência.

Mas existem aqueles que não têm essas possibilidades. Sabemos que muitos jovens já não possuíam um bom relacionamento com seus pais e familiares, e o convívio forçado com o isolamento social, apenas agravou essa situação. Ouço relatos de jovens que não querem sair do quarto ou que tem se internado cada vez mais em jogos eletrônicos, redes sociais e outros passatempos para se distanciar da realidade de sua casa. Mais alarmante ainda são aqueles que não possuem acesso aos meios eletrônicos. Não tem rede social, celular, tampouco computador. Lembro que durante a pandemia, um amigo meu, professor da rede pública de Curitiba, me contou que estava indo até à casa de um de seus alunos que não tinha telefone, televisão e nenhum outro recurso para aprender. Caso o professor não levasse o conteúdo impresso, iria desistir de estudar. Como uma pessoa dessa vai se relacionar com amigos ou outros por meio digital? Essa é uma condição que a sociedade contemporânea tem exigido cada vez mais. Durante a pandemia assisti Dom Guilherme Mol falando em uma live “Antes da Igreja pensar em espiritualidade digital, devemos começar a pensar em Inclusão digital”. Bem, essa parte é apenas um parêntese para reflexão. 

Ainda sobre as doenças mentais que surgiram, ou que se reforçaram na sociedade durante a pandemia, a ansiedade e a depressão são as que disparam numa população mais do que o medo da doença, temem pelas incertezas do futuro. Alguns casos beiram pensamentos suicidas, quadro clínico mais grave que necessita de muita atenção. Em reportagem divulgada pela Folha de São Paulo, no dia 3 de julho de 2020, uma pesquisa realizada pela plataforma digital ComunicaQueMuda (CQM) verificou que houve um aumento de postagens nas redes sociais sobre o tema suicídio durante a pandemia. Os relatos e depoimentos que foram 6,3% em 2017, passaram para 23,5% em 2020. Enquanto o número de notícias sobre suicídio subiu para 42%, o número de mensagens positivas e reflexões sobre a seriedade do assunto subiu para 63% em 2020. Esses dados mostram que as pessoas estão mais motivadas a falar abertamente sobre o assunto e compreendem que a saúde mental não é mais tabu e que é preciso tratar com seriedade.

Para conversar mais sobre o assunto, trouxemos alguém de referência e com muita vivência no tratamento e apoio a pessoas com distúrbios mentais, a psicóloga Raline Queiroz. Raline, é formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), atua em consultório particular e no Centro de Defesa da Vida (CDVida), uma ONG que atende mulheres em situação de violência doméstica e familiar, em Duque de Caxias/RJ. O CDVida é uma obra social vinculada à Diocese da cidade.

Raline Queiroz é psicóloga formada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

MARI: O que é saúde mental? E qual a importância do “Setembro Amarelo”?

RALINE: De acordo com a Organização Mundial da Saúde, saúde mental é um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a sua comunidade. Diante disso, ter uma boa saúde mental não está relacionado a não adoecer ou ter ausência de doenças, e sim conseguir recuperar-se das situações difíceis e desafiadores, reconhecer seus limites e buscar hábitos mais saudáveis.  A campanha Setembro Amarelo, tem por objetivo principal favorecer a conscientização e a prevenção do suicídio. Os casos de suicídio no mundo todo aumentam e os jovens são os mais afetados, por isso torna-se necessário falar sobre isso, quebrando o tabu e possibilitando uma maior compreensão da população sobre os mitos, riscos e formas de prevenir.

MARI: Como podemos reconhecer que precisamos de ajuda profissional? Muitas pessoas encaram quem sofre de depressão como “frescas”, como podemos desmistificar isso? 

RALINE: Algumas pessoas mostram-se resistentes em pedir ajuda, sobretudo, quando se fala em questões psicológicas.  Atrelam o fato de ir ao psicólogo ou ao psiquiatra, como “coisa de maluco” ou “coisa de gente fraca”, o que é uma visão totalmente equivocada e preconceituosa. Assim como adoecemos fisicamente por diversos fatores e buscamos um profissional de referência, o mesmo deveria acontecer quando nossa saúde mental adoece. Pedir ajuda é um ato de coragem e o primeiro passo para um processo de melhora.  O start para buscar ajuda, precisa ter como referencial o seu bem-estar e sua qualidade de vida. Se está difícil de lidar com suas próprias emoções e sentimentos e isso vem afetando sua vida cotidiana, seu trabalho, seus relacionamentos ou está vivendo um período da vida com muitas mudanças, perdas e outras questões mobilizadoras, um profissional de saúde mental pode te ajudar a compreender o que está acontecendo e assim, te ofertar o tratamento e o acolhimento necessário. 

MARI: A taxa de suicídio aumentou consideravelmente durante a pandemia. Entre os jovens o número é maior, assim como vários transtornos mentais decorrentes de problemas, que por vezes já existiam, e que se agravaram com a pandemia. 

RALINE: De fato, a pandemia provocou um grande impacto na saúde mental da população mundial.  Diante de tantas incertezas, as perspectivas de vida e de futuro reduzem, as esperanças se esvaem e viver parece perder o sentido. Com isso, o número de casos de suicídio é um grande alerta acerca da saúde mental de crianças, jovens, adultos e idosos.  Grande parte das pessoas já apresentavam quadros de ansiedade e depressão antes do período de isolamento social e que necessitaram dar continuidade aos seus tratamentos ou iniciar um acompanhamento psicológico. Muitas iniciativas de psicólogos, grupos de estudos e ONGS, surgiram para dar suporte às pessoas que estavam em sofrimento, o que possibilitou ofertar acolhimento e cuidado em meio a pandemia do Covid-19.

MARI: Quais são as principais questões emocionais enfrentadas pelo jovem e como ele pode mudar isso? 

RALINE: A fase da juventude é atravessada por muitas mudanças sociais, físicas e psicológicas na vida dos adolescentes e jovens, por isso, muitas questões surgem justamente nessa fase do desenvolvimento humano. Problemas de autoestima, aceitação do corpo, ansiedade, sexualidade, abuso e uso de álcool e outras drogas, conflito com os pais, desempenho escolar, escolha profissional são algumas das muitas demandas que emergem no período da juventude. Diante disso, o favorecimento de espaços de escuta e fala com uma rede de apoio que pode ser composta pela família, pela escola, amigos ou profissionais de saúde, proporciona que esses adolescentes e jovens sintam-se ouvidos e acolhidos frente as suas demandas.  Falar é a melhor solução.

MARI: Existe algum tratamento no SUS, ou ONGs que oportunizam de forma gratuita o cuidado com nossa mente e nossas emoções? 

RALINE: Sim, existe. O SUS possui uma Política Nacional de Saúde Mental, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), os Serviços Residenciais Terapêuticos, os Centros de Convivência e Cultura, as Unidades de Acolhimento e os leitos de atenção integral em Hospitais Gerais. E muitas ONGs ofertam gratuitamente atendimento psicológico para crianças, adolescentes, adultos, famílias, enlutados, dentre outros recortes. O SUS muitas vezes não consegue dar conta da demanda e assim, a sociedade civil torna-se uma aliada na promoção de saúde mental.

No contexto da pandemia do novo Coronavírus, a preocupação com a saúde mental aumentou.

MARI: E quais recursos posso eu, em casa, fazer sozinho para cuidar da minha saúde mental?

RALINE: É extremamente importante que cada um de nós, reconheçamos nossos limites e entenda o que é possível sustentar na prática de autocuidado. Não existe receita de bolo, mas recomendam-se algumas iniciativas que podem contribuir na manutenção de sua saúde mental.  A prática de atividades físicas, alimentação balanceada, busca por atividades prazerosas e de relaxamento, construção de uma rede de apoio e atendimento psicológico online são algumas opções. 

MARI: Você acredita que a espiritualidade e saúde mental/emocional estão interligadas?

RALINE: Com certeza.  Quando bem integrada na vida do sujeito, contribui de forma positiva para a sua saúde mental. Tal influência se dá a partir de vários fatores importantes como:  estilo de vida, busca por equilíbrio e sentido da vida, suporte social, um sistema de crenças, práticas religiosas, formas de expressar estresse, direção e orientação espiritual. Por isso, estudos apontam que a espiritualidade pode ser um fator de proteção e suporte para transtornos mentais menores e graves.

MARI: Como o jovem pode contribuir consigo e com o seu próximo, considerando a espiritualidade como caminho para o cuidado com a saúde mental?

RALINE: A espiritualidade pode fazer parte de um tripé importante, na prática, do autocuidado de todos nós, sobretudo, na vida do jovem. Diante de tantas adversidades vivenciadas ao longo da vida, torna-se necessário cuidar desse indivíduo de maneira integral em sua dimensão:  biológica, psicológica, social e espiritual, visando o fortalecimento de vínculos, a relação dialogada, a escuta sensível, a solidariedade, a afetividade com si e com o outro e a valorização da dignidade humana. Segundo Boff (2001): “A espiritualidade vem sendo descoberta como dimensão profunda do humano, como elemento necessário para o desabrochar pleno de nossa individuação e como espaço de paz no meio dos conflitos e das desolações sociais e existenciais”. 

Ao final desta entrevista, me coloquei num diálogo com grande amigo, Frei Vitório Mazzuco. Perguntava quais as direções que São Francisco de Assis poderia nos ter dado em suas palavras no cuidado da mente. Frei Vitório me respondeu que não em palavras, mas sim em atitudes (grande Francisco!) esse Santo nos ensinou muito, ele foi um verdadeiro terapeuta da humanidade. Registro aqui algumas palavras como mensagem final, para você, amiga leitora, amigo leitor, que necessita de cuidado nesse momento. A ti meu carinho e afetuoso acolhimento. Paz e bem!

“Francisco de Assis, já no século XIII, revela o paradigma moderno de que a essência do humano está no cuidado. Uma das crises maiores da civilização hoje é a falta de cuidado. Se começamos a cuidar um do outro, do ser humano integral, tudo começa a dar certo. A estrutura básica do humano não é a razão, mas o afeto. São Francisco une afetividade e espiritualidade, e mostra que saúde e santidade não se separam. Ele nos ensina que quando estamos perdidos, precisamos procurar um caminho, e viver o amor do evangelho é um caminho certo para essa transformação. Francisco nos convida a um caminho de transformação e de reconstrução. Fazer essa opção de entrar num caminho de transformação não é estar à procura do fantástico e do extraordinário, mas é aprender a fazer de maneira certa grandes coisas pequenas. Amemos mais, sejamos mais afetuosos nessa nova geração do cuidado que se levanta no mundo.”

Referências: 

BOFF, L. Espiritualidade: um caminho de transformação. 6. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2001. 94p

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Abraços, Mari Rogoski

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