CF: Ainda é necessário!?

Estamos vivendo o Tempo da Quaresma, e neste período, a Igreja no Brasil dedica de forma mais intensa a reflexão a partir de uma temática proposta pela Campanha da Fraternidade, que é preparada com mais de um ano de antecedência pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O tema da Campanha deste ano é ‘Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso’ e o lema bíblico é ‘Viu, sentiu compaixão e cuidou dele’, baseado na parábola do bom samaritano.

O cartaz homenageia Irmã Dulce, canonizada no dia 13 de outubro de 2019, e que agora é chamada de Santa Dulce dos Pobres. Santa Dulce dos Pobres, conhecida popularmente como Anjo Bom da Bahia, foi uma das religiosas mais populares do Brasil graças ao trabalho social prestado aos mais pobres e necessitados, principalmente na Bahia.

Para aprofundar este tema e nos ajudar no estudo e reflexão da Campanha deste ano, convidamos Frei Gabriel Dellandrea, frade estudante do 5º período de Teologia, que atualmente reside em Imbariê, na Baixada Fluminense (RJ).

LEIA O TEXTO NA ÍNTEGRA:

Já temos quase seis décadas que, mais intensamente durante a quaresma, a Igreja no Brasil é convidada a refletir sobre temas na Campanha da Fraternidade (CF). Saúde pública (2012), Amazônia (2007), família (1994), juventude (1992 e 2013), políticas públicas (2019) foram alguns temas que nesses 55 anos a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresentou para aprimorar a reflexão quaresmal do cristão. Diante destas áreas de abordagem, são somadas tantas outras que fazem a lista ser extensa. Somado a isso, muitos acontecimentos no Brasil suscitaram temas, não deixando a Igreja carente de áreas a serem refletidas: isso tanto na esfera religiosa, como a Jornada Mundial da Juventude e as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), bem como na esfera social, como a ditadura militar, crescimento dos movimentos populares e entre outros.

A CNBB e muitas comunidades não medem esforços para um sério comprometimento com a Campanha, produzindo e divulgando materiais, ampliando temas e realizando ações concretas. Mas, nos últimos anos, há um sentimento de desprezo em relação a esta forma de refletir durante a quaresma. Algumas comunidades já nem aprendem mais o Hino da Campanha, os cartazes já não aparecem tanto nas igrejas e até mesmo entre alguns digitais influencers, o andamento e as conclusões da Campanha já foram alvos de questionamentos. Há quem considere tal iniciativa da CNBB algo caduco, falido, sem sentido, desconectado com a realidade.

O fato é que a Campanha da Fraternidade nasceu num tempo de muita reflexão sobre os rumos da Igreja: o Concílio Vaticano II. Este, que nas palavras do Papa Paulo VI, teve uma finalidade pastoral, suscitou esta e outras iniciativas na Igreja em todo o mundo para a reflexão sobre temas para o crescimento da fé dos cristãos. Tudo isso aliado ao protagonismo leigo, à superação da dicotomia “Igreja e Sociedade”, como lugares antagônicos, ao desejo sincero de ir ao encontro de toda realidade, intensificando a missão da Igreja de ser uma luz, ainda mais presente em todos os meios.

Porém, é claro que nesta tentativa aconteceram acertos e gestos concretos motivadores, bem como desafios e exageros. Assim como em toda a história da Igreja há aspectos positivos e também situações de desconforto. Nestes últimos casos, rendemos graças por hoje pensarmos diferente: um exemplo disso é que um dia a comunidade eclesial já considerou normal certos tipos de escravidão, por exemplo. Não nos cabe julgar o passado sem levar em consideração o pensamento de cada época, até por que seria anacrônico fazermos isso. O que não podemos é repetir ações que nada tem sentido hoje ou que vão de desacordo com os caminhos que a Igreja quer se propor no século XXI. Aliado a isso, podemos ressignificar alguns erros de ontem com as profecias e esperanças de hoje.

Diante disso, a CF não é dogma. Ela não é condição originária e amplamente essencial do Tempo da Quaresma. Esse período não tem a obrigação de ser acompanhado do Hino da Campanha, ou de temas, cartazes e formações. O essencial desse momento forte do ano litúrgico é o desejo honesto de conversão, de caminhada penitencial para o cristão se conformar ainda mais com o Cristo. E aí podemos dizer que a Campanha da Fraternidade possui um valor adicional. Ela não é fundamental enquanto iniciativa, mas nos aproxima do mistério que celebramos, nos coloca próximos de temas que precisam ser acompanhados, mostrando que a conversão nos atinge por inteiro.

Muitas pessoas pensam que conversão somente se restringe ao âmbito pessoal (rezar mais, não comer carne, confessar-se…). Isso faz parte do processo, mas se queremos um humano integrado com o meio em que vive, muitas dessas ações podem se tornar uma busca intimista. Isso não nega tais gestos expostos acima, mas eles podem nos levar a um encontro ainda maior com o outro, o nosso irmão, que figura o rosto de Cristo nos mais sofredores. Rezar mais, nos coloca nesse encontro. Não comer carne para evitar desperdício e perceber que este alimento degrada florestas com a pecuária extensiva é ter clareza do cuidado com a Casa Comum. Confessar-se, na certeza da misericórdia de Deus que me acolhe e acolhe o outro que preciso perdoar, rompe com a barreira do individualismo.

Por isso, a Campanha da Fraternidade quer realizar essa provocação: aprimorar temas que nos levam ao encontro de realidades delicadas e que precisam de atenção, justamente no período quaresmal. Como já vimos, ela procura fazer essa integração entre a nossa busca pessoal de Deus e o nosso compromisso social como uma coisa só. E nesse ponto a Igreja sempre teve infinitas contribuições, como nos seus inícios, expressa por exemplo na frase de São Crisóstomo: “Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez”.

Diante disso, é claro que a Campanha da Fraternidade pode ser reformulada. Caso ela esteja distanciada dos fiéis em seus métodos, e caduca em suas abordagens, ela pode ser constantemente reavaliada. Afinal, ela nasceu para somar com a Igreja, e não para ser um peso. Porém, na sua essência de mostrar que a conversão engloba o ser humano por inteiro, e provocando a nossa consciência social e eclesial, ela ainda mantém um papel muito importante.

O tema proposto para este ano – Fraternidade e vida: dom e compromisso – e o lema – “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34), nos abre para esse caminho de sermos bons samaritanos nos cuidados aos mais sofredores. Um ícone para isso é Santa Dulce dos Pobres, que nunca perdeu a sua atualidade no exercício da caridade. Ao realizar a leitura do texto-base, é possível evidenciar denúncias de situações que “empobrecem” a humanidade, não só financeiramente, mas humanamente. A resposta é o cuidado fraterno, que procura estabelecer laços de fraternidade e profecia, levando em consideração gestos concretos de comunidades eclesiais missionárias. Portanto, a proposta da Campanha da Fraternidade pode, caso necessário, ser revista em seus métodos, mas está completamente afinada com o sonho de uma “Igreja em saída”.

Fraternalmente,

Frei Gabriel Dellandrea.

REFERÊNCIAS:

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