Irmã Isabel: “Dá-me a graça de viver a todo instante a minha vocação”

Neste mês de fevereiro, a coluna “Em Fraternidade”, recebe com muita alegria e festa a Irmã Isabel Cristina Simeoni, da Congregação das Irmãs Franciscanas de Ingolstadt. A religiosa é natural de Marau (RS), e professou os votos perpétuos de castidade, obediência e pobreza, no ano de 2002, na cidade de Porto Barreto (PR). Atualmente está em missão em terras estrangerias, no país de Angola.

Irmã Isabel não nega que sente muitas saudades do Brasil e conta que na missão ela é conhecida como a “Madre Isabele”. Atualmente, trabalha com a formação das jovens aspirantes, postulantes e vocacionadas locais. “Sei que não é uma experiência fácil, uma missão simples, são vidas preciosas, dons de Deus que vem ao nosso encontro”, revela a religiosa.

Leia o texto na íntegra:

“Pequenas águias correm risco quando voam, mas devem arriscar. Só que é preciso olhar os pais como eles voam, e aperfeiçoar”

Foi com este pensamento que encontramos na canção “Águia Pequena”, do Padre Zezinho, que me coloquei a disposição para fazer a experiência, como costumamos dizer no Brasil, além-mar. É evidente que deixar tudo, tornar-se uma pessoa anônima, estranha numa terra desconhecida, onde no começo você conhece apenas algumas pessoas, e deixar para trás centenas de amigos, é deverás muito difícil meu amigo! Digo isso, mesmo sabendo que um dos meus grandes sonhos era este, ser missionária em terras africanas, mas, quando a hora chega, o coração aperta e dispara, as mãos gelam e tremem, o tempo de viagem é uma eternidade! Entre outras coisas que acontecem! Creio que isso, não foi somente eu que senti, acredito que cada um dos missionários sente algo do gênero.

Para situá-los, vou contar em pouquíssimas palavras um pouco da história da Congregação que faço parte. Lá vai então, uma “pitadinha” de história das Irmãs Franciscanas de Ingolstadt. Estão prontos? Fechem os olhos e vamos para a viagem no tempo, meu querido leitor do Conexão Fraterna. Passaremos de “drone” pela história de 744 anos da Congregação. Nós, somos do Século XIII, 50 anos depois da morte de Francisco de Assis. Chegamos ao Brasil em 1938, por conta da Segunda Guerra Mundial. Em Luanda, chegamos em 2008; um lugar que estava também saindo de um período de Guerra.

No início da conversão de nosso Pai Seráfico São Francisco de Assis, ele olhou para o crucifixo e ouviu a seguinte oração: “Vai e reconstrói a minha Igreja”. Eis, um toque sutil de Deus para nós como congregação que temos como missão primeira “transformar o vale de lágrimas em vale de graças”. Será que existe um lugar de mais lágrimas do que um país saindo de uma Guerra?! E assim tudo aconteceu.

Logo que as Irmãs chegaram aqui em Angola, iniciaram ações em creches, com a catequese paroquial, diocesana e nas escolas. Moraram primeiro nas Irmãs Clarissas como hóspedes, depois de aluguel, até então construírem a atual residência que hoje moramos. Toda a missão em Luanda está inteiramente ligada com a Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola (FIMDA), que são os nossos amigos e irmãos freis da Ordem dos Frades Menores (OFM). Sendo assim, estamos sempre com o povo, com o povo querido de Deus, estejam eles onde estiveres.

Há exatamente seis meses cheguei aqui. Foi no dia 21 de agosto 2019, mais ou menos às 5h30, horário local, que pisava neste chão de “terra sagrada”, chão quente, de povo acolhedor, trabalhador, que tem um sorriso largo e canta forte, muito forte. Observei muito bem isso na primeira Celebração Eucarística em que pude participar. Aqui nenhuma celebração dura menos de uma hora e meia. E olhe só que detalhe legal, quando comentei com as formandas que as celebrações no Brasil são mais curtas elas me perguntaram: “Lá não se canta?”. Logo que cheguei fui recepcionada por algumas mamás (mães), e já virei a “Madre, Isabele”; aqui em algumas palavras costumam acrescentam a letra e, (sale, male, sole, finale…).

“Tem uma prece que eu repito suplicante por mim, por meu irmão, dá-me está graça de viver a todo instante a minha vocação”.

Tendo como base esta música, a minha missão específica atualmente é trabalhar com a formação das jovens aspirantes, postulantes e vocacionadas locais. Na Paróquia a responsabilidade é de outra irmã há mais tempo. Cheguei e já tínhamos seis jovens que estavam em formação conosco no tempo do aspirantado. Concluímos assim o ano de 2019. Para este ano de 2020, o projeto e o desejo é que todas sejam aprovadas para o postulantado. Se todas abrirem-se para a graça e a formação, “quiçá” em 2021, um grupo de noviças genuinamente angolanas estarão no Brasil.

Agora com a graça de Deus, e a partir do desejo e busca de cada uma que deseja conhecer e viver o carisma e a missão das Franciscanas de Ingolstadt, estou disposta a contribuir dentro das minhas capacidades. Sei também que não é uma experiência fácil, uma missão simples, são vidas preciosas, dons de Deus que vem ao nosso encontro. Preciso ter a graça de Deus, ter a paciência de Maria e as luzes do Espírito Santo, nesta tarefa. Tudo isso é necessário para poder acolher, servir, orientar todas e a cada uma “no e do seu jeito”, em especial.

De maneira geral, as vocações aqui são vastas, mas mais nos terrenos masculinos. Que digam nossos irmãos da OFM, que estão com as casas de formação cheias. O terreno, as “terras vocacionais”, ou melhor, “as sementes”, aqui produzem “bue”, expressão local daqui para dizer muito, bastante.  O que é bem diferente na questão das vocações femininas, que ainda estão mais enraizadas na família pela própria cultura, do apego e do poder exercido pelos familiares. De maneira geral, as jovens trazem um poder de aquisição para a família quando são pedidas em casamento na tradição das etnias. (Mas isso a gente explica melhor em outra oportunidade). Então, encontramos nesta e em outras tradições dificuldades para que, pais e tios, liberarem as jovens para realizarem o processo de discernimento vocacional.

Agora já estou mais integrada com o contexto e a realidade social em que estamos inseridas. Já participei de alguns encontros, formações de catequistas, celebrações de religiosos; já estou percebendo as dinâmicas, as alimentações, a expressão de cada “etnia”, pois em se tratando de etnia, mesmo na formação são capazes de apresentarem muitas dificuldades na aceitação e na vivência da espiritualidade.

É… “saudades palavra triste”… Quando lembro-me do Brasil bate uma saudade! Foi assim que descobri que ela dói. E como dói! Saudades de tudo que vi e vivi nos últimos anos no Brasil. Principalmente em saber que você que está lendo este texto, faz parte do meu “kit” de saudades! Pode ter certeza que sinto saudades de você mesmo que a gente se encontrasse pouco. Então, se você me conhece, pode acrescentar uma dose de saudade que sinto de você também e coloque um crédito em alguém que pensa em ti: eu, Irmã Isabel!

Espero reencontrá-los em breve. Um grande abraço.

Irmã Isabel Simeoni

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