“Estava nu e não me vestiram”

Pois é pessoal, depois do carnaval vem a quarta-feira de cinzas. E a quarta-feira de cinzas marca o início de um período de quarenta dias, onde somos convidados a vivenciar o mistério da Paixão de Jesus. Faz memória dos quarenta dias em que Jesus passou jejuando no deserto. É um tempo em que a Igreja propõe exercícios de oração, jejum e esmola. 

Depois dos dias da festa da alegria, somos convidados a passar por um período de reflexão, de proposta de conversão, de introspecção que não pode se traduzir a um pensamento voltado para si. É o tempo do pensar em que eu posso fazer para melhorar minha relação com o outro. Olhar para dentro com a coragem de analisar o que precisa ser restaurado em mim, e com determinação para me levantar e agir. O convite é para viver um estado de oração mais íntima e profunda, um jejum produtivo, e uma esmola penitente.

Como forma de oração é importante além das fórmulas já conhecidas, exercitar a meditação e leitura orante da Palavra de Deus. Procurar não julgar e falar mal de nossos irmãos, deixando de lado intrigas e fofocas. Fazendo assim da vida uma oração. Podemos exercitar o jejum das críticas e do pessimismo, levando sempre uma palavra amiga e um sorriso bondoso. Existe a sugestão da abstenção de carne, que é uma forma bem efetiva de fazer penitência, e algumas pessoas se abstêm ainda de refrigerante ou de bebidas alcoólicas. Tudo isso, além de fazer bem ao corpo, se praticado de maneira penitencial pode também fazer bem ao espírito. Mas para a obra ser completa, podemos tornar fruto do nosso jejum em um ato concreto para quem não tem como escolher o que irá comer.

Ao longo do tempo a esmola foi tomando uma conotação pejorativa, e até em alguns casos substituída pelo termo “penitência” nas orientações. Mas é importante mencionar que a “esmola” não é dar aquilo que me sobra, ou que não me fará falta, é antes dar com amor algo que me é importante, ou que é fruto do meu jejum, da minha abstinência quaresmal. Esmola não é doar dinheiro, é muitas vezes doar aquilo que quase não temos para o outro, como por exemplo nosso tempo.

Podemos nos lembrar das orientação de Jesus para quando praticarmos o jejum, contidas em Mateus 6, 16-18. Jesus pede para que não tenhamos tristeza no olhar durante a prática do jejum. Por isso creio que a quaresma não é um tempo de tristeza. Embora seja um momento de profundo respeito e preparação, há de se lembrar que existe a promessa da ressurreição. Nossa fé não está baseada em um mistério que acaba na morte de um Deus, mas sim na Sua vitória sobre a morte. 

Interessante pensar como aparentemente o carnaval tem ideias opostas ao que nos propõe o tempo da quaresma. De fato, a temperança no agir, a moderação e a prudência devem nortear nossas ações o tempo todo, inclusive no carnaval. Mas a alegria também deve mover nossa fé, sobretudo na quaresma, já que nossa fé é baseada na ressurreição de Jesus.

Durante estes quarenta dias somos convidados a meditar sobre a Sua paixão e morte, e vivenciar com profundidade o mistério de um Deus que dá a vida, mas sem nunca perder a fé e a esperança na ressurreição. Por isso, o carnaval nos trás muitas coisas que podemos aproveitar.

A festa pagã, pode ser observada como expressão do convívio harmônico entre pessoas diferentes, a manifestação cultural e artística que ultrapassa gerações, a alegria por estar entre amigos, até mesmo as manifestações políticas, as sátiras, e a crítica a algumas mazelas que são verdadeiras chagas abertas, que vitimam principalmente os mais pobres e excluídos. Quando observada dessa forma, percebemos que não precisamos nos apartar da alegria, e podemos vivenciar de maneira saudável a festa que antecede a quaresma. Para alguns existe o incomodo causado pela nudez, fato compreensível partindo do ponto de vista de que não estamos acostumados a lidar com o corpo, e tendemos a erotizar tudo. Claro que por outro lado a erotização dos corpos é muito bem trabalhada pela mídia, mas cá entre nós, a mídia explora uma tendência já enraizada na nossa sociedade. 

Este assunto me faz vir a memória uma resposta de Dom Hélder Câmara, grande profeta brasileiro em processo de beatificação e apaixonado pelo carnaval, quando em uma entrevista de TV teria sido perguntado sobre o que achava do topless, teria ele respondido de maneira muito simples: “Meu filho, eu me preocupo com quem não tem roupa para usar, mas com quem tem para tirar, não me importo“. Dom Hélder foi arcebispo de Olinda e Recife, e um dos fundadores da CNBB. Era franciscano secular (OFS), e uma das maiores referências da Igreja na luta pelos direitos humanos durante a ditadura, sofrendo diversas ameaças. Teve quatro indicações ao Nobel da Paz, e até hoje é reconhecido e admirado no mundo.

Poxa, então é para ser favorável à nudez? Calma aí, não foi isso que eu disse, nem muito menos o que Dom Hélder falou. O que queremos reforçar aqui é que um uma sociedade marcada pela exclusão social, onde pessoas não tem o que comer e o que vestir, passamos horas discutindo a conduta de quem tem roupa para tirar, ou que pode “escolher” ficar sem comer carne durante a quaresma. A grande questão é que, sendo cristãos e tendo como proposta de exercício a prática da oração, do jejum e da esmola, deveria nos preocupar muito o fato de ter pessoas que ainda não tem o que vestir e nem o que comer, enquanto em nossas mesas escolhemos o dia que comeremos carne e em nossos armários temos roupas para usar o ano todo. 

Ocorre que nos incomodamos muito mais com a nudez de quem tem roupa para vestir, e nos calamos sobre a falta de roupas de milhares. Assim como nos escandaliza ver alguém comendo carne em uma sexta-feira de quaresma, e não mencionamos a ausência de comida no prato de tantos irmãos. Talvez seja por uma anestesia moral, ou porque compromete menos, mas a verdade é que dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, vestir quem estiver nu, é o que nos pede Jesus (Mateus 25, 31-46).

A nudez no carnaval pode ter conotação política, ideológica, ou até apelo erótico, não me importo, somos livres para escolher aderirmos ou não a qualquer dessas manifestações. Por certo que devem existir formas mais sensatas de se manifestar, e que causem menos escândalo, e se a pergunta é pessoal, eu digo que existem sim muitos exageros. Mas não há como não ficar escandalizado com a generalização da fome e da pobreza. Se a dor e a necessidade do irmão não nos causar pavor, estaremos todos vivendo uma fé falsa e profundamente moralista. Até mesmo São Francisco, em um ato de profundo desprendimento e restituição das coisas de seu pai ficou nu, de uma forma escandalosa e contestadora para a época.

Que neste tempo de quaresma que se inicia possamos abrir os olhos e os corações à necessidade dos nossos irmãos, livres de julgamentos e censuras, e principalmente libertos das desculpas que costumamos utilizar para não nos envolvermos. Façamos assim um exercício quaresmal fecundo, que nos leve a uma verdadeira conversão de vida, que nos aproxime dos irmãos que mais precisam de nossa presença e nosso acolhimento.

Paz e Bem!

Carlos Fernandes Vera Neto

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