O amanhecer de um carisma (Lucas Moura)

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“E assim, ao amanhecer Francisco apressadamente volta para Assis, muitíssimo alegre e contente, esperando a vontade do Senhor que lhe mostrara estas coisas e que lhe daria um conselho para a sua salvação”

Quando eu era pequeno minha mãe me disse de um homem no litoral da Colômbia que conseguiu subir ao alto do céu e na volta contou que lá de cima o mundo todo era um mar de foguinhos, o mundo era isso, um montão de gente, um mar de foguinhos. A vontade era a de fechar o nariz e a boca de um jeito bem forte, e ver se como um balão de criança, eu subia também. O céu tem um azul tão bonito, que mesmo que fosse tudo mentira, seria bom ver ele de perto. Quando olho para esse azul, ainda hoje, lembro do voador colombiano, do rosto de encanto de minha mãe, e por causa dela, penso se daqui de baixo não dá de ver desse mar de foguinhos também.

Pela janela de um ônibus é fácil de confundir uma pessoa com a outra, principalmente se há a vontade de ver algumas que ficarão por dias e dias distantes da retina da gente. Eu ficaria dentro de um por oito horas, e era bem possível que eu confundisse o rosto de muita gente durante esse tempo de espera. Ainda porque a distância de dias longe dessas pessoas equivaleria a translação inteira do planeta em volta do sol. A saudade é um bicho tão estranho, algo que a gente sente logo quando se despede, algo que nos parte, reparte; e decide ficar no lugar de onde decidimos partir. Será que com a terra também é assim? Será que ela sente saudades na sua volta pelo sol? Acho que não. Talvez essa deva ser umas das cinco mil explicações possíveis para a falta, algo dentro de nós pedindo para voltar, logo quando o coração, o sonho e a coragem pedem que não, pedem que você continue indo.

Do meu acento eu podia ver um casal um pouco mais maduro, um senhor de cabelos brancos com um rádio grande nas mãos que ele colocava próximo a orelha tentando escutar sua música baixinho, sem incomodar ninguém. Eu fiquei olhando o velhinho durante um bom tempo, ao menos até o sol descer, dar tchau para a gente e se esconder discretamente por de trás das coisas que havia no horizonte. Aquele senhor, com toda aquela cabeleira branca parecia carregar muito da saudade, pois, a cada música nova que se iniciava no seu rádio de pilhas, ele suspirava como que querendo voltar para algo que elas devolviam a ele. Eu podia ouvir o murmúrio de cada música tocada, eram canções do Tim Maia, eu e o velho íamos para lugares parecidos. Eu lembrava os olhares do meu pai, da minha turma de escola, das insolucionáveis questões das aulas de matemática, mas não sei onde o velinho ancorava; é terrível a existência de duas retas paralelas porque elas nunca se cruzam, elas apenas se encontram no infinito.

Eu dormi. Quando dei por mim já havia chegado aonde devia descer. O sol também já havia chegado. Clareava tudo e da janela do ônibus a paisagem toda parecia um mar de foguinhos. O velhinho com o rádio não havia chegado, já não estava nem ele e nem o rádio no acento onde estavam. Desci do ônibus, tomei a bagagem, caminhei ao modo de um atropelado, todo atordoado pelo tempo, sem saber para onde ir, ou o lugar em que parar. Fiquei por instantes na espera vagarosa de alguém que poderia me encontrar. Chamaram-me pelo nome, dei de frente com um homem. Homem alto, sério, sereno, simples, de sandálias nos pés, calça jeans, camiseta toda de uma cor só, óculos. Ele me levou para a casa, para o lugar em que eu chamaria de lar. No caminho a conversa aconteceu de um jeito tímido, mas apesar das falas serem poucas nos notamos, e ali eu soube que era verdade essa história do voador colombiano que subiu ao céu e viu que lá de cima o mundo é uma porção de foguinhos. Existe gente de fogo quieto, que nem fica sabendo do vento e existe gente de fogo forte, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam, mas outros, outros ardem na vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem os olhos lacrimejarem, e quem se aproxima se incendeia.

A saudade permanecerá porque só sente saudades quem fez o outro habitar no coração, mas a imensidão do mar faz-nos habitar no desconhecido do novo. O novo para mim era essa nova vida, esse novo horizonte todo franciscano. E mesmo com saudades, a imensidão do mar valeria a pena…

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