Saudades do tempo em que amar era normal!

É interessante pensar que estamos em um tempo onde se faz necessário falar sobre ver ter compaixão pelos outros. Quando eu era pequeno, minha mãe me estimulava a ser cordial, respeitar e amar os irmãos. O estranho era não amar. De repente, parece que o que ser tornou estranho é amar, ter compaixão. Me lembro ainda de outro fato, quando já era mais velho, de uma repórter me apresentando um vídeo com imagens de uma multidão espancando um menino na rua, por ter furtado um objeto. Fiquei surpreso pelo simples fato de mostrar um vídeo com essa natureza, com tamanha violência. Imaginei que a repórter fosse revelar a necessidade de responsabilizar o Estado, dando ênfase ao fato de que a sociedade civil não deveria “fazer justiça com as próprias mãos”, mas para a minha surpresa ela estimulou a agressão e ainda terminou dizendo: “Tá com pena? Adote um marginal!”

Hoje, começamos o Tempo da Quaresma e a Igreja do Brasil, por meio da Campanha da Fraternidade, nos apresenta a reflexão da parábola do Bom Samaritano, como um itinerário religioso em preparação à Páscoa de Jesus. Talvez lhe venha a pergunta: mas qual a relação entre o menino e a pessoa cuidada pelo samaritano? Respondo que ambos são marginais! Os dois estão na margem da sociedade e nós precisamos aprender a olhar para eles com aquele olhar que as mães nos ensinaram a ter. Um olhar como o de Maria, que viu seu Filho ser torturado, condenado e morto como um marginal, mas que entendeu a necessidade de amar para além dos limites da humanidade.

A parábola apresenta alguém que estava à margem da sociedade. No texto vemos que o sacerdote, atravessa para o outro lado para não correr o risco de estar impuro, para prestar culto a Deus, por medo de se envolver com a miséria e o sofrimento do agredido. Nisto notamos claramente que se envolver com o problema do outro de fato nos compromete.

“Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho. Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu o homem e seguiu adiante, pelo outro lado” (Lc 10, 31).

Penso que se eu estivesse junto ao menino espancado e tentasse defendê-lo poderia ser igualmente agredido verbalmente ou até fisicamente. Mas agora ainda me pergunto: porque eu não estava lá, do lado daquele menino? Uma primeira opção de resposta seria: porque não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo. Mas, ainda me restaria justificar e me perguntar qual o real motivo que faz com que eu ainda não esteja junto dele, agora. Porque não busco entender todos os que estão a margem, no desejo de curar as feridas?

Nós vivemos em um tempo diferente de Jesus, e às vezes temos a tentação de imaginar o que nós faríamos se estivéssemos no mesmo tempo e lugar em que Jesus esteve e ainda pensamos que se estivéssemos, seriamos diferentes daqueles que o abandonaram. Devo dizer que não é possível nos transportar para 2020 anos atrás, mas talvez seja possível nos transportar para dentro da mensagem de Cristo, da parábola do Bom Samaritano e ter compaixão. Talvez seja possível ser o levita (mestre da Lei), às avessas, onde a lei seja amar. Talvez seja possível ser o sacerdote às avessas, onde o sagrado seja ver, ter compaixão e cuidar de quem está pelo caminho. Talvez, ainda, seja possível ser mais um daqueles que estão a margem, que não aceitam a centralidade da dureza de coração e por isso são samaritanos (grupo excluído), mas que amam e que incluem a todos.

O tempo de hoje não é tão simples assim. Amar se tornou complicado, nos compromete. Sinto saudades do tempo de criança, em que amar era simples, um ato livre e estimulado pelos nossos pais. Sinto saudades de não precisar me justificar por repartir os poucos bens que tinha, um pacote de biscoito (bolacha, se preferir). Sinto saudades dos gestos simples, como o olhar de satisfação de uma mãe que observa o filho fazendo a tarefa mais difícil de se cumprir: amar. Pode ser até complicado ter que entender o que faz as pessoas não se unirem aos que sofrem e o motivo pelo qual tantos ainda estão no caminho, mas a lição evangélica se ensina para as crianças e jovens desde cedo.

Frei Marx e as crianças da “Ocupação 9 de Julho” região central de São Paulo (SP).

Jovens, não se apeguem tanto as complicações desse mundo, ousem ser crianças que amam por convicção. Amem como o menino de Maria, que nos contou uma história em que Ele era a vítima, mas que no final, os que entenderam o recado não estavam dispostos a adotar aquele marginal e o levaram para a cruz. Deram-lhe a cruz para Aquele que só queria ser amor para com o próximo.

“E Jesus perguntou: “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” Ele respondeu: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então Jesus lhe disse: “Vai e faze a mesma coisa” (Lc 10, 36-37).

Desejo a todos um bom tempo quaresmal. Paz e Bem!

Um abraço,

Frei Marx Rodrigues dos Reis

Fotos: Frei Augusto Luiz Gabriel / Acervo pessoal.

2 comentários

  1. Que linda mensagem.
    Vinda de quem a escreveu ,logo percebemos o dom de amar.
    Obrigada querido por nos ensinar a voltar a amar!!!
    Que esse amor puro e sincero de criança possa reinar novamente no meio de nós e em nossos corações.
    Acredito que chegará o dia que o AMOR reinará soberano e reconheceremos Jesus como nosso único Senhor e nesse dia nossas igrejas serão pequenas para acolher tanta gente.
    Um grande abraço .
    Com muito amor!💋❤️🙏🏻

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