Que eu ame a diversidade

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Conheci o Antony Fedalto quando comecei a dar catequese para a primeira etapa na Igreja Matriz da comunidade que cresci, Ferraria. Lá ele começou como meu ajudante. Um menino alegre, sorridente, carinhoso e curioso para as coisas de Deus. Adorei conhecê-lo, ele tinha uns 13 ou 14 anos. Certo dia soube da reclamação de uma mãe para a secretária da paróquia: “Não posso aceitar que meu filho tenha catequese com esse menino, essa gente assim!”. Ela se referia ao Antony, na mesma época que começava a se descobrir homossexual. Aquilo bateu forte dentro de mim. Refletia comigo mesma: “Mas o que ele tinha demais, ou de menos, ou diferente? Ele é ótimo, talvez o melhor ajudante que já tive na catequese. Interagia com as crianças, disponível, amava estar lá”. Bati de frente, disse: “Ele não vai sair daqui!”. E foi assim que nosso amor começou, uma linda amizade que já tem mais de cinco anos.

Aquela talvez tenha sido meu primeiro posicionamento de defesa da comunidade LGBTQIA+ e sem saber. Defendi um humano, um amigo, alguém que conheci a alma. Comecei a acompanhá-lo na caminhada espiritual e no seu processo de autoconhecimento. E não foi tão fácil, da mesma forma que acontece com inúmeros adolescentes e jovens no Brasil.

Antes de mais nada, vamos conhecer o assunto: primeiro, o que significa o termo diversidade? Diversidade significa variedade, pluralidade, diferença. Dentro desse universo, hoje quero focar no movimento LGBTQIA+. Você sabe o que significam essas letrinhas? Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais ou transgênero, Queer, Intersexo, Assexual, + todas as diversas possibilidades de orientação sexual. Acima das definições das letras, a sigla possui um lindo significado:  é movimento político e social de inclusão de pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero. Os primeiros registros históricos da homossexualidade datam 1200 a.C. Em muitas civilizações as relações homossexuais foram aceitas conforme registros históricos, mas em tantas outras ainda hoje o homossexual é considerado um criminoso. Vocês acreditam que até o ano de 1990 a homossexualidade era considerada uma doença mental pela Organização Mundial da Saúde? Confesso que fiquei pasma quando descobri isso. O dia 17 de maio é considerado o Dia Internacional contra a homofobia, justamente por conta dessa retirada da lista mundial de doenças.

Bem, com algumas informações apresentadas, quero me debruçar sobre um tópico que muito me assusta: o preconceito, em especial a homofobia. Esse mesmo que presenciei lá com o Antony, mesmo sem ainda ter se reconhecido como tal.

Em 2018, o antigo Ministério dos Direitos Humanos do Brasil divulgou um estudo chamado “Violência LGBTFóbicas no Brasil” contendo dados da violência de 2016 (meio atrasado, né?). Os dados foram extraídos das denúncias feitas pelo Disque 100 (importante ferramenta de defesa dos direitos humanos (deixa ele salvo nos números de emergência do seu telefone!), mas sabemos que muitas agressões não são registradas por esse canal, então fica apenas uma parcela das informações. Dados importantes: Quer saber qual é a faixa etária que mais sofre violência homofóbica? Jovens de 18 a 24 anos! E os suspeitos? A maioria homens, de 36 a 40 anos, sendo que a maioria das agressões aconteceu em espaços públicos (ai se eu tô junto!). 

O Grupo Gay da Bahia, instituição mais antiga do Brasil na defesa dos direitos homossexuais, publicou em seu relatório de 2016 dados assustadores dos assassinatos no Brasil do público LGBTQIA+. Foram mais de 300 assassinatos registrados com a causa violência homofóbica, sendo São Paulo e Rio de Janeiro campeões, com 49 e 30 mortes, sucessivamente. O Grupo afirma no relatório “É importante salientar que não é possível dizer que um determinado Estado seja mais violento que o outro, mas sim o nível de repercussão que estes casos possuem na mídia local e/ou nacional.”

No final do ano de 2019, o excelentíssimo (ironicamente falando) Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, publicou um relatório com novos dados, datados do ano de 2018, com base nas denúncias do Disque 100. Novamente me chamou atenção a faixa etária: 45,03% do perfil da vítima LGBT são jovens entre 18 e 30 anos, novamente o maior número das agressões são realizadas na rua. Mas agora prestem atenção nesse dado: 33% DOS CASOS DE VIOLÊNCIA HOMOFÓBICA OS SUSPEITOS SÃO CONHECIDOS! São pais, mães, irmãos, vínculo comunitário, familiares de 2° grau, vizinhos. Cara, isso é terrível! São aqueles que mais conhecem, que viram nascer, crescer, amaram, cuidaram e que agora batem, machucam, ferem com palavras… para mim isso é muito paradoxal, complexo.

São muitos dados? Sim, são. Mas mega importante estarmos atentos a essas informações para identificarmos a raiz do problema. Vemos aqui uma sociedade machista, que reprime os mais jovens, tradicional que não aceita o diferente e que cada vez mais bota pra fora sua raiva em ambientes públicos, descontrole emocional puro (terapia ajuda muito!). E vamos combinar que nosso atual governo está sendo promotor dessa cultura do ódio. Ouvi falar que em 2018,  em duas cidades brasileiras homens foram vistos com a faixa da suástica nazista no braço, gente… O que é isso, retrocesso?

Ah! Quanto ódio… 

Quando escrevi essa coluna procurei pelo Antony. Queria ouvir mais da vida dele, saber como está, sua vida, seus projetos e tudo. Antony é um jovem franciscano, que começou sua caminhada de fé no carisma através das Caminhadas Franciscanas, na mesma época em que passou a se conhecer e no processo de aceitação da família e seus amigos. Nesse bate-papo ele contou das dificuldades que teve, desde o processo de autoconhecimento, autoaceitação, diálogo com a família, amigos e seus relacionamentos. Mas também me contou de como se sentiu acolhido pela comunidade franciscana durante todo esse processo (lindo, não?). Após convite para participar da CFJ e das MFJ passou a sentir mais acolhido pela Igreja. Mesmo nas missões em lugares com famílias super conservadoras, foi amado, sentiu afeto! Falou que mesmo com algumas pessoas, que de alguma maneira ainda sentirem preconceito, na fraternidade franciscana tudo passa. Contou que foi acolhido por frades, recebeu orientações de amigos, foi se conhecendo, se amando. Levou sua família para esse meio e hoje seu pai caminha com todos. Sua família, o ama e respeita. Contou que essa caminhada de fé tem o ajudado nos processos de maturidade e autoconhecimento e autoaceitação. Hoje sabe que existe um lugar na Igreja que o acolhe e ama. Contou de seus sonhos: o primeiro – ser bailarino de cantores/as do cenário pop (ele faz faculdade de dança na Federal do Paraná e já foi para campeonatos no Faustão e até nos Estados Unidos), segundo – ser professor de dança em escolas públicas e oportunizar a arte para quem não tem acesso (hoje já é aluno PIBID lecionando aulas no Colégio Estadual do Paraná, o maior do estado). Terceiro: Sentir-se potente o suficiente para falar de diversidade sexual nos espaços religiosos que ele participa. (Cara, olha que lindo isso! Antony, eu te amo!). Aqui nessa história eu consigo ver amor, acolhida, afeto, e corações conectados. Gosto dessas conexões.

Rapidamente, outra história franciscana: lembro da MFJ de 2017 em Curitiba, a temática era “Missionários da Reconciliação”. Estávamos na organização preparando o encontro e rezando a respeito. Conhecemos Maysa Regina, uma trans que é liderança na Pastoral da Diversidade em Curitiba. Que presente conhecê-la que testemunho! Ela vive o celibato em busca da defesa do público LGBT e no diálogo com a Igreja. Tive a oportunidade de entrevistá-la, fiquei com olhos marejados. Ela me falou do amor e do quanto desejava que aqueles jovens que estavam no encontro amassem mais o ser humano, acolhesse o diferente e construíssem mais pontes. Ela testemunhou para os 600 jovens que estavam lá. Lembro de alguns relatos de jovens verem uma senhora com vestido florido e discreto que subiu ao palco, pegou o microfone e disse: “Desculpe eu usar o microfone, pois minha voz fica mais masculina, mas vocês todos precisam escutar” e começou a contar sua vida, uma história de dor, luta e muito amor. Foi choro! Um evento lindo, mas fomos muito criticados, durante o encontro, depois e inclusive dentro da comunidade franciscana, da qual vivemos fraternidade. Mas, acredito que dessa vez o amor venceu. 

E aqui quero trazer palavras do nosso querido Papa Francisco sobre o assunto. (Ah esse homem, se soubesse o quanto amo suas palavras!) Em 2019 ele nos transmitiu algumas sábias palavras sobre a homofobia numa entrevista a uma jornalista: “Se estivéssemos convencidos de que eles (LGBT) são filhos de Deus, as coisas mudariam muito”.  Ele não defende o homossexualismo, isso já posicionou como Igreja, mas afirma e defende que acima do adjetivo, é preciso amar o ser humano e defender a dignidade da pessoa. Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou sobre o amor. Disse: “Ame o seu próximo como a si mesmo” (Mc 12, 31) (não especificou se esse próximo precisa ser hétero, ou branco, ou magro, ou ou ou ou). Francisco de Assis já corria pelas vielas murmurando “O Amor não é amado”. Cristo, nosso amor maior. Esse amor que ainda precisa ser encontrado no rosto do outro. No rosto daquele que é diverso a mim, ao padrão. 

Precisamos amar mais o outro, independente do adjetivo, do rótulo. Que eu ame a diversidade, a dignidade do diverso. E isso deve acontecer em todos os espaços, na escola com aquele colega que está se descobrindo (imaginou a barra que ele tá passando com a família?). Na comunidade em diálogo com as pastorais – para os dedões julgadores, aqui registro um documento maravilhoso do Papa Francisco chamado Amoris Laetitia, que no capítulo VIII fala que “todos têm lugar à mesa”. Vamos pensar lá no estágio, no trabalho, nas piadas homofóbicas, ou na maneira pejorativa que chamamos um colega (Ô viado). Vamos pensar nas meninas e mulheres com seu processo de posicionamento social, onde algumas ainda precisam se afirmar com sua sexualidade diferente do senso comum – mulheres de peito! Por favor, não façamos parte daquelas estatísticas apresentadas mais cedo.

Finalizo refletindo o quanto são gestos de amor que fazem mudar a vida de um ser humano. Acolhimento, é isso que todos precisam. Não queiram julgar se está certo ou errado, se são homo ou hétero, pretos, brancos, mulatos, altos, baixos, gordos, magros, somos criação de Deus, carne e osso, santos e pecadores – todos somos iguais. 

Então, vamos amar nossa irmã, nosso irmão, vamos amar?

De coração, Mari Rogoski

6 comentários

  1. Obrigada Conexão Fraterna! Em tempos tão difíceis de posicionamento e intolerância, vocês trazem reflexões profundas e reais, onde não somente os jovens e toda a família franciscana, mas todos aqueles que realmente buscam viver a espiritualidade e o amor se identificam com os temas aqui propostos. Um blog que sai da cabeça e nos pega na alma. Que tem como essência a espiritualidade mais apaixonante e envolvente: nosso eterno Francisco… Ou para os mais íntimos, nosso amado Chiquinho!!

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  2. Parabéns Mari Rogoski pela linda reflexäo! Que esse rico conteúdo possa atingir o coraçäo e a alma de tantas pessoas que precisam saber, entender, aceitar, acolher, perdoar e amar a todas as pessoas independente de raça e crença. Que Deus continue abençoando e protegendo sua vida e sua missäo. Abraços.

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